Escrito por: Construindo a unidade e fortalecendo o sindicalismo nas Américas

Fundação da CSA

O Portal Mundo do Trabalho traz essa semana a cobertura do Congresso da CSA (Central Sindical das Américas), que acontece de 26 a 29, no Panamá. Acompanhe a entrevista do secretário geral da Central Unitária dos Trabalhadores do Panamá, Luiz Gonzales.

 

 

“O capitalismo selvagem, hoje metamorfoseado em neoliberalismo globalizado, gera cada vez mais pobres e menos ricos, com exclusão e terríveis impactos políticos, sociais e econômicos que superam os limites nacionais. A Central Sindical das Américas nasce dentro desta perspectiva internacionalista, combinando a luta política cotidiana com a sócio-laboral. Para sermos vitoriosos, temos consciência de que é preciso envolver o sindicalismo com os demais atores sociais, levando adiante e aprofundando a luta de nossos povos pela libertação nacional e a construção de novos espaços democráticos, de garantia de direitos para a classe trabalhadora. Isso exige uma resposta articulada do movimento sindical na batalha por um Estado indutor do desenvolvimento, que não seja invisível como querem as transnacionais¨.

 

A afirmação é de Luiz Gonzales, secretário geral da Central Unitária dos Trabalhadores do Panamá, uma das entidades anfitriãs do congresso de unificação da ORIT com a CLAT, que acontece neste importante e caloroso istmo, de 26 a 29 de marco, sob o lema Trabalhadores e Trabalhadoras construindo a unidade e fortalecendo o sindicalismo nas Américas.

 

O evento ocorre no Hotel El Panamá, conhecido por ter hospedado o escritor Graham Greene e o agente da CIA John Perkins, um dos muitos a relatar com riqueza de detalhes o envolvimento do Departamento de Estado norte-americano no assassinato do presidente panamenho Omar Torrijos, com a explosão de seu avião em 31 de julho de 1981. A execução ocorreu apenas dois meses depois da morte do presidente equatoriano, Jaime Roldós, em 24 de maio, na queda e explosão do helicóptero em que viajava, após ter se posicionado pela renegociação dos contratos petrolíferos com as transnacionais norte-americanas. A lei proposta ao Congresso por Roldós era bastante semelhante à aprovada por Hugo Chàvez na Venezuela Bolivariana.

 

SANGUE E FOGO

 

¨Enfrentamos anos de ocupação norte-americana e há muito pouco tempo somos um país livre, com acesso à nossa maior riqueza, o Canal do Panamá. Foram anos em que os trabalhadores contribuíram, com o sangue de milhares de companheiros e mártires, para conquistar o direito de toda nossa nação à liberdade e à soberania. A resistência é, portanto, parte de nossa identidade e é uma das contribuições que trazemos para este Congresso da CSA¨, declarou o sindicalista. Conforme Gonzales, o lucro anual gerado pela obra que une os oceanos Atlântico e Pacifico supera os US$ 800 milhões anuais.

 

Segundo ele, uma das principais batalhas do sindicalismo panamenho é justamente conseguir “traduzir o crescimento econômico em distribuição de riqueza, que se alcança fundamentalmente melhorando as convenções coletivas em nosso pais”. Uma expresiva parcela do PIB, revela o sindicalista, continua concentrada nas mãos do capital transnacional e acaba não se convertendo em benefício para o conjunto da população. ¨O Panamá está enriquecendo. O crescimento nos últimos cinco anos foi de cerca de 10%, chegando a 11,6% em 2007, e lutamos para que isso se reverta em melhoria de qualidade de vida, em recursos para a construção de moradias populares, saúde e educação. Provamos que somos competitivos, que o trabalhador panamenho é eficiente e precisa ser mais valorizado¨.

 

¨Em nossa luta pela soberania, correu muito sangue, muita consciência foi gerada, houve um acúmulo muito grande¨, recorda o sindicalista, assinalando que foram inúmeras as invasões patrocinadas pelos governos norte-americanos, ¨cerca de 60 intervenções solicitadas covardemente pela oligarquia local para aplacar as revoltas¨.

 

Uma delas, lembra o sindicalista, foi quando os norte-americanos chegaram para terminar o canal iniciado pelos franceses, e comecaram a impor seu regime de segregação racial, separando os brancos dos negros e latinos: “houve  um verdadeiro levante¨.

 

Gonzales frisou que a luta pela independência nacional gerou seus mártires e citou a transcendência do pensamento de Omar Torrijos que forjou ao longo dos anos em seu povo um profundo sentimento de justiça e determinacao antiimperialista. ¨Omar dizia: não seremos uma estrela a mais na bandeira dos Estados Unidos, e que não há colônia que dure cem anos, nem panamenho que a suporte¨.

 

COMANDANTE OMAR

 

Acima de tudo, recorda Gonzales, Omar Torrijos era um grande mediador, um líder com capacidade de negociar e dialogar de igual com o homem comum. “Era um homem humilde e querido, que conversava com os trabalhadores e camponeses, com os índios e também com o pessoal de terno e gravata. Tinha muito claro os princípios da liberdade e da igualdade entre os povos e contribuiu imensamente para que os trabalhadores tivessem reconhecido o direito a sua participação na gestão do Estado”

 

Devido a este acúmulo, assinala Gonzales, quando em 19 de dezembro de 1989 os Estados Unidos atacaram o Panamà, no maior ataque aerotransportado sobre uma cidade desde a Segunda Guerra, não conseguiram desmantelar as conquistas históricas do torrijismo. Violando a soberania panamenha, em frontal transgressão à lei e sob a condenação da comunidade internacional, George Bush pai sequestrou o presidente do país, Manuel Noriega, e o levou preso para os EUA.

 

Fomos com Gonzales ao bairro de El Chorrillo, onde estava localizado o principal quartel das Forças Armadas nacionais, próximo a um bairro pobre, local onde morreu a maior parte dos 4 mil panamenhos civis e militares trucidados pelas bombas dos invasores. Pelo cálculo da Comissão de Direitos Humanos, além desses milhares de mortos, 25 mil pessoas ficaram desabrigadas. A covarde agressão ao Panamá serviu de palco para os norte-americanos testarem armamentos posteriormente utilizados contra o Iraque. 

 

Com lágrimas nos olhos, o sindicalista lembra da noite da invasão, e `da luta revolucionária de resistência, onde acompanhávamos as organizações civis na defesa, ajudando na coleta de alimentos e medicamentos. ”Minha esposa era enfermeira de uma clínica que ficava próxima às bases norte-americanas do Canal. Vivia a 32 quilômetros da cidade e tinha que cruzar por perto da zona dos comandos militares dos EUA para buscá-la. Felizmente fui, pois todos os que vinham no ônibus que ela pegava foram mortos pelas bombas norte-americanas”.

 

¨Deposto o governo, tentaram desmantelar as empresas nacionais, solapar o patrimônio público estatal. Queriam privatizar a Seguridade Social, tomar conta dos Fundos de Pensão. Apesar de tudo, conseguimos resistir e, enfrentando a forte repressão, a realidade das perseguições e dos muitos exilados, cinco anos depois, o partido de Torrijos, o PRD, conseguiu voltar ao poder”, recorda.

 

O CANAL E DO PANAMÁ

 

Em 31 de dezembro de 1999, o Panamá finalmente recuperou o controle total sobre o seu Canal, garantindo assim o cumprimento dos acordos Torrijos-Carter, firmados em 1977. Para o povo panamenho este acontecimento marca o fim do país enquanto colônia ianque. Para que ninguém visse a capitulação, os norte-americanos arriaram sua bandeira na noite anterior.

 

Em 2006, um plebiscito popular decidiu por larga margem aprovar a ampliação do Canal, que hoje encontra-se no limite de suas operações, dando vazão a 14 mil navios/ano de costa a costa. “Começamos a debater sobre as implicacões políticas, econômicas e sociais desta ampliação. Constituímos mesas para propor desde melhorias na educação e na moradia até questões relativas à ecologia e ao meio ambiente, envolvendo o conjunto dos atores sociais. Neste espaço, o governo foi um ator mais, uma outra perna da mesa, não o dono da mesa. Hoje isso possibilita que cada um de nossos 65 municípios tenha um percentual da riqueza gerada pelo canal”, comemora.

 

Para o dirigente da CUT Panamá, ”os ventos do Sul sopram em favor das mudanças, alimentadas pela rebeldia dos povos”. Por isso, assinalou: ”Num momento de avanço e conquistas, particularmente na América do Sul, que começa a virar a página do neoliberalismo privatista e buscar maior integração”, é preciso condenar a flagrante violação colombiana ao território equatoriano”. A resposta da OEA, lembra com orgulho Gonzales, foi elaborada pelo chanceler equatoriano, discípulo de Omar Torrijos.

 

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MarianoVazquez@cta.org.ar