Experiências apresentadas no 7º Encontro do Coletivo Nacional LGBTQIA+ da CUT ampliam a luta LGBTQIA+ e contribuem para ampliar a participação nos espaços de decisão do movimento sindical
A formação sindical como instrumento fortalecer a presença da população LGBTQIA+ nos espaços de direção da CUT e de suas entidades foi destaque da mesa “Formação e Experiências Sindicais”, realizada durante o segundo do dia do 7º Encontro do Coletivo Nacional LGBTQIA+ da CUT, que reuniu, na sede da Apeoesp em São Paulo, dezenas de sindicalistas de todo o país, nesta sexta-feira (5). A mesa teve a participação da educadora e coordenadora da Secretaria Nacional de Formação da CUT, Conceição Oliveira, (Maria Frô), e do professor e coordenador do Coletivo LGBTQIA+ da CUT-DF, João Macedo
O objetivo principal da atividade foi apresentar experiências exitosas de formação voltadas à diversidade e discutir como a organização sindical pode se tornar mais representativa da composição real da classe trabalhadora brasileira. Ao apresentar o projeto “Formação, Diversidade e Organização Sindical”, desenvolvido pela Secretaria Nacional de Formação da CUT em parceria com o Coletivo Nacional LGBTQIA+ e a Confederação Alemã de Sindicatos DGB BW, Maria Frô destacou que a diversidade não pode ser tratada como um tema secundário dentro da ação sindical.
Segundo ela, reconhecer a pluralidade da classe trabalhadora é condição básica para qualquer processo formativo comprometido com os princípios da CUT. “A classe trabalhadora é diversa. Ela é formada por homens, mulheres, pessoas trans, travestis, intersexos, não binárias, pessoas negras, indígenas, quilombolas, jovens, idosos, pessoas com deficiência e trabalhadores de diferentes territórios e categorias. Reconhecer isso é o básico para a formação da CUT”, afirmou.
Para a educadora, o enfrentamento às discriminações está diretamente ligado à luta de classes e ao projeto político da Central. “Quando falamos em enfrentar discriminações, estamos falando de enfrentar o machismo, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia e todas as práticas que negam direitos, dignidade e reconhecimento aos trabalhadores e trabalhadoras. Isso não pode ser lateral. Isso é parte da nossa luta de classe”, ressaltou.
Formação para transformar representação em poder
O projeto apresentado por Maria Frô é resultado de três anos de trabalho e busca fortalecer a participação de grupos historicamente subrepresentados nas estruturas sindicais.
O foco da iniciativa é ampliar a presença de mulheres, pessoas negras, jovens, pessoas com deficiência e trabalhadores LGBTQIA+ nos espaços de decisão da CUT, nas negociações coletivas e nas atividades de formação.
“Nós queremos que esses grupos ocupem espaços de poder dentro da nossa Central e das nossas estruturas sindicais para fazer a disputa política e levar avanços para as mesas de negociação, para os congressos e para as plenárias”, explicou.
De acordo com os dados apresentados, o projeto já reuniu 293 cursistas de 184 sindicatos, envolvendo 16 ramos de atividade e as seis escolas sindicais da CUT. As mulheres representam mais de 60% dos participantes e cerca de 16% se identificam como LGBTQIA+.
Maria Frô destacou que uma das principais lições do projeto foi a necessidade de tornar visíveis segmentos da classe trabalhadora que muitas vezes permanecem ocultos nas estatísticas sindicais.
“Se está invisibilizado, não tem política. É por isso que precisamos mostrar que essas pessoas existem, que estão organizadas e que precisam ser consideradas nas negociações e nas políticas sindicais”, afirmou.
Ao relacionar a conjuntura política atual aos desafios da formação, Maria Frô alertou para o crescimento do fundamentalismo religioso e para a necessidade de defesa dos espaços democráticos.“O quanto a formação é estratégica porque a gente precisa fazer essa disputa. A gente precisa defender a laicidade e a ampliação dos direitos”, afirmou.
Ocupar espaços e transformar estruturas
Ao longo da mesa, o educador João Macedo compartilhou a experiência desenvolvida no Distrito Federal para ampliar a presença da pauta LGBTQIA+ nos processos formativos da CUT.
O dirigente explicou que a estratégia adotada pelo coletivo foi deixar de atuar apenas como participante das atividades e passar a influenciar diretamente sua construção. “Nós não queríamos estar ali apenas como sujeitos. Nós queríamos estar ali como atores e atrizes”, afirmou.
Segundo João, a atuação do coletivo permitiu que a temática LGBTQIA+ deixasse de aparecer apenas em atividades específicas e passasse a integrar os cursos de formação de forma mais permanente.
“A gente provocou a formação a colocar não só uma mesa ou um curso, mas que nós pudéssemos estar contidos em todas as formações de formadores”, relatou.
Para ele, a transformação exige que a população LGBTQIA+ esteja presente nos espaços onde as decisões são tomadas.
“A gente não quer só acabar com a invisibilidade porque nós não somos invisíveis. Algumas pessoas escolhem não nos ver. A gente quer ocupar lugares estratégicos e quer que toda a classe trabalhadora tenha uma atitude diferente da sociedade que reproduz preconceitos”, disse.
João também destacou que as mudanças conquistadas nos últimos anos dentro da CUT foram resultado da organização coletiva e da disposição de enfrentar resistências.
“Nós só conseguimos ter uma Secretaria Nacional de Políticas LGBTQIA+ porque fomos ousados. Se tivéssemos esperado as coisas acontecerem naturalmente, talvez estivéssemos hoje no trigésimo encontro do coletivo e não em uma secretaria nacional”, afirmou.
Ao encerrar sua participação, ele reforçou a importância da ação coletiva para enfrentar a LGBTfobia e ampliar direitos.
“Tudo aquilo que nos atravessa enquanto trabalhadores e trabalhadoras exige organização. Sozinhos não vamos fazer isso. Vamos fazer isso na coletividade, porque esse é o espírito da classe trabalhadora”, concluiu.
Encontro em imagens
Acesse as galerias de fotos do 7º Encontro do Coletivo Nacional LGBTQIA+ da CUT:
Mais detalhes
O projeto FFC/CUT-DGB (Formação de Formadores Continuada) é uma iniciativa da Secretaria Nacional de Formação da CUT Brasil em parceria com a confederação sindical alemã (DGB) e o Coletivo Nacional LGBTQIA+. O objetivo central do projeto é fortalecer a Rede Nacional de Formação e ampliar a participação de grupos historicamente marginalizados (jovens, mulheres, negros e negras, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIA+ )nas instâncias de decisão, na mobilização de base e nos processos de negociação coletiva.
Veja mais dados:
Os dados e resultados do projeto comprovam que a formação atua como um instrumento de combate ao machismo, racismo e LGBTQIA+fobia, reafirmando que o respeito à diversidade é um fortalecimento da democracia sindical e da organização de base.