Atividade reuniu sindicalistas de todo o país debater prevenção, inteligência, direitos humanos, racismo e valorização dos profissionais da segurança e lança coletivo nacional do setor
Na tarde desta quarta-feira (12), a CUT deu um passo importante para ampliar sua participação no debate sobre segurança pública ao realizar o 3º Seminário sobre Democracia, Segurança e Direitos Humanos. O encontro reuniu dirigentes, especialistas e profissionais do setor para discutir propostas que articulem proteção da população, valorização dos trabalhadores, democracia e respeito aos direitos humanos.
O seminário atende a uma deliberação da 17ª Plenária Nacional da CUT e integra o processo de construção da pauta programática da Central para as eleições de 2026. A iniciativa também reforça a segurança pública como uma questão diretamente ligada à vida da classe trabalhadora, tanto de quem enfrenta a violência no cotidiano quanto de quem atua profissionalmente na área.
Durante o encontro, a CUT lançou o Coletivo Nacional de Segurança Pública. O novo espaço deverá mobilizar trabalhadores cutistas de diferentes segmentos, organizar suas reivindicações e ampliar a participação das categorias na formulação de propostas para uma transição democrática na segurança pública.
A criação do coletivo também representa uma aproximação mais permanente entre o movimento sindical e categorias que nem sempre são reconhecidas como parte da classe trabalhadora. Policiais, guardas municipais, profissionais da perícia, trabalhadores das políticas penais e da segurança privada enfrentam problemas relacionados a salário, jornada, carreira, previdência, assédio, saúde mental e condições de trabalho.
Ao mesmo tempo, essas categorias atuam em uma área marcada por disputas políticas e diferentes concepções sobre o papel do Estado. No seminário, os participantes defenderam que os profissionais não sejam chamados apenas para executar as políticas de segurança, mas também participem de sua formulação.
Segurança pública na disputa eleitoral de 2026
O debate ganha importância diante das eleições de 2026. A segurança pública já aparece na Plataforma da CUT para as Eleições, que reúne as propostas da Central para serem apresentadas aos candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado e às assembleias legislativas.
Em mensagem enviada aos participantes, o presidente nacional da CUT, Sérgio Nobre, afirmou que o seminário permite aprofundar essa formulação e organizar os trabalhadores do setor.
“Com esse seminário, temos a oportunidade de aprofundar o debate e criar o tão necessário coletivo de segurança pública, à luz da conjuntura e da recém-lançada Plataforma da CUT para as Eleições 2026, que destaca as reivindicações prioritárias da nossa Central sindical”, disse.
Segundo Sérgio, a proposta defendida pela CUT deve conciliar a proteção da população com o respeito aos direitos. “Na plataforma, destacamos a importância de o país ter uma segurança que atenda a necessidade da população brasileira e respeite os direitos humanos”, afirmou.
Para o presidente da Central, o assunto terá peso na disputa eleitoral e exigirá uma atuação organizada do movimento sindical. “Democracia, direitos humanos e segurança são temas que estão no centro dos debates e embates eleitorais desse ano”, declarou. Segundo ele, estarão em disputa, de um lado, “o combate sério à violência” e, de outro, “as mentiras, manifestações de ódio, preconceito e incentivo à violência pela extrema direita”.
Sérgio também afirmou que parte da população desconhece as responsabilidades da União, dos estados e dos municípios na segurança pública. Na avaliação dele, essa falta de informação prejudica o debate e dificulta a cobrança sobre cada governo.
“Eu ando pelo Brasil e vejo como parte significativa da população ainda desconhece quais são as reais atribuições e competências de cada ente federativo no tema da segurança pública”, declarou.
Ainda na abertura do evento e sobre a plataforma, o secretário-geral da CUT, Renato Zulato, afirmou que a proposta da Central é construir uma política capaz de proteger a população e valorizar os profissionais do setor.
“A nossa plataforma apontou que nós defendemos implantar uma segurança cidadã para substituir a violência armada, com mais investimento em inteligência e prevenção, também valorizando os trabalhadores que atuam na área de segurança”, disse.
Zulato relacionou o debate à realidade de quem sai cedo para trabalhar e enfrenta roubos e outras formas de violência nos deslocamentos. Ele também questionou governos que anunciam investimentos, mas não conseguem oferecer segurança percebida pela população.
“Dizem que investem muito em segurança, mas a população não vê esse investimento”, afirmou. “Onde está a segurança aqui no estado de São Paulo e em outros estados?”
Segurança pública – as várias nuances de um mesmo tema
1 - Segurança também passa pela garantia de direitos
O secretário de Políticas Sociais da CUT São Paulo, Edison Bertoldo, destacou que o debate deve relacionar a segurança à garantia de direitos sociais e trabalhistas. Para ele, a insegurança não está apenas nas ruas, mas também na perda de proteções conquistadas pela classe trabalhadora. “Em sua convenção coletiva, aquilo é a nossa segurança para a classe trabalhadora”, afirmou.
Bertoldo também chamou a atenção para quem circula pela cidade nos horários de maior risco. “O trabalhador, o movimento social, o movimento popular, todos os brasileiros se sentem inseguros nas ruas. Quem volta do trabalho à meia-noite se sente seguro?”, questionou.
Segundo o dirigente, as discussões do seminário precisam chegar às empresas, fábricas, hospitais e demais locais de trabalho, aproximando o tema da realidade cotidiana da população.
2 - Herança autoritária e lógica de guerra
A secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara, afirmou que a segurança pública brasileira ainda carrega uma herança autoritária, aprofundada durante a ditadura militar. “A segurança pública no Brasil sempre foi concebida no sentido de proteger as classes dominantes das classes trabalhadoras”, disse.
Segundo Jandyra, essa concepção aparece na lógica de guerra adotada em parte das ações do Estado, que atinge principalmente a população negra, pobre e periférica.
“Se nós não estamos em guerra, então contra quem as forças de segurança atuam?”, questionou. “É contra o povo pobre, periférico, negro, contra os trabalhadores nas periferias.”
Para a dirigente, superar essa estrutura exige compreender suas raízes e construir uma política de segurança vinculada à democracia, aos direitos humanos e à proteção de toda a população.
3 – Combate ao racismo
O sociólogo Benedito Mariano, ex-ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, defendeu que o antirracismo esteja presente na formulação de uma nova política de segurança pública.
“Para construir um projeto de segurança pública democrático, cidadão e antirracista, é fundamental que o ingrediente do antirracismo esteja na formatação dessa política”, afirmou.
Mariano também avaliou que o campo democrático precisa reconhecer o pouco diálogo mantido com os profissionais do setor. “A esquerda e o campo democrático dialogaram muito pouco com os trabalhadores e trabalhadoras da segurança pública. Nós temos que fazer uma meia-culpa”, disse.
Segundo ele, qualquer mudança precisa ser construída com a participação desses trabalhadores. Sem esse envolvimento, as propostas dificilmente terão apoio para se transformar em políticas públicas efetivas.
4 – Agentes são trabalhadores
A agente da guarda civil municipal de São Bernardo do Campo (ABS Paulsita) e integrante da Executiva da CUT São Paulo, Vivia Martins, destacou que os profissionais da segurança nem sempre são reconhecidos como parte da classe trabalhadora.
“Muitas vezes a gente não é visto como trabalhador. A gente é visto como o braço armado do Estado”, afirmou. “Nós somos trabalhadores também.”
Com 26 anos de profissão, Vivia reconheceu que aproximar as categorias da segurança do movimento sindical é uma tarefa difícil, mas necessária.
“Você vai encontrar gente que acha que nós somos baderneiros, mas a gente não pode desistir”, disse. Para ela, o diálogo e a organização coletiva podem ampliar a participação desses profissionais na luta por direitos e na construção de uma nova política para o setor
5 – Hierarquia do poder X assédio
Antes, Jandyra Uehara já havia destacado, durante a sua fala, o tema “trabalho” na questão da segurança pública. Ela também contestou o argumento de que a organização sindical dos profissionais da segurança seria incompatível com a hierarquia e a disciplina das corporações.
“É claro que uma corporação armada precisa ter disciplina e hierarquia. Não podemos confundir hierarquia com assédio, com humilhação”, afirmou. Segundo a dirigente, saúde, carreira, previdência, formação, condições de trabalho, combate ao assédio e negociação coletiva formam uma pauta comum entre as diferentes categorias.
“Os trabalhadores da segurança não podem ser apenas operadores da política. Têm que ser formuladores da política”, defendeu.
6 – Segurança no trabalho
A policial civil Juliana Ribeiro chamou a atenção para as condições de trabalho e os riscos enfrentados pelos profissionais da segurança, inclusive fora do horário de serviço.
Ao abordar o combate ao crime organizado, ela defendeu que a proteção dos trabalhadores seja prevista desde a elaboração dos programas.
“Quando a gente vai organizar ações para combater o crime organizado, nós temos que nos lembrar de colocar o trabalhador também no centro desse programa”, afirmou.
Juliana também apontou a necessidade de incorporar a saúde mental, a valorização profissional e os direitos dos policiais a todas as políticas do setor, acompanhados de jornada adequada, equipamentos e respaldo do Estado.
A saúde mental do início ao fim da carreira
O adoecimento e o suicídio entre os profissionais da segurança também foram discutidos no seminário, por se tratarem de problemas que não podem ser considerados ‘questões individuais’. Eles estão relacionados diretamente à estrutura e às condições de trabalho.
O ex-ouvidor da PM-SP, Benedito Mariano, citou uma pesquisa realizada durante sua atuação na corporação, entre 2018 e 2020. “O suicídio policial no estado de São Paulo é quatro vezes maior que o suicídio na população paulista”, disse.
Segundo Mariano, os programas de segurança pública precisam oferecer acompanhamento de saúde mental aos trabalhadores desde o ingresso até o encerramento da carreira.
Prevenção precisa alcançar os jovens mais vulneráveis
A assessora especial da Presidência da República Tamires Sampaio defendeu que as políticas de prevenção identifiquem os territórios e os jovens mais expostos à violência. “Não adianta ter um município prioritário sem pensar, dentro desse município, qual é o território que a gente de fato quer atingir para garantir essa juventude viva”, afirmou.
Segundo Tamires, devem receber atenção prioritária os jovens que passaram pelo sistema socioeducativo, deixaram a escola ou pertencem a famílias atingidas pela violência do Estado. Para chegar a esse público, ela apontou a necessidade de cruzar dados e realizar busca ativa.
As ações, explicou, devem incluir acesso à documentação e às políticas públicas, acolhimento jurídico, formação profissional e oportunidades de ingresso no mercado de trabalho.
Tamires também citou o projeto Jovens Defensores Populares, que reconhece esses jovens não apenas pela situação de vulnerabilidade, mas por sua capacidade de atuar nas comunidades. “É um jovem que tem capacidade e possibilidade de construir projetos, ser uma liderança e transformar esse território também”, afirmou.
Raça e gênero nas políticas de segurança
Tamires Sampaio também defendeu que as políticas de segurança e prevenção incorporem de maneira explícita as desigualdades de raça e gênero.
“É importante que a gente tenha um eixo específico para o enfrentamento ao racismo”, afirmou. Ela também apontou a necessidade de uma frente voltada “ao enfrentamento à violência contra as mulheres e à violência de gênero no geral”.
Segundo Tamires, essa diretriz deve ser acompanhada pelo fortalecimento das delegacias de atendimento às mulheres e das Patrulhas Maria da Penha. Ela alertou que muitas equipes dedicadas à prevenção trabalham sem estrutura e reconhecimento.
“São grupamentos que estão sucateados em sua grande maioria”, disse. Para a assessora, a formação em democracia, direitos humanos, gênero e relações raciais precisa vir acompanhada de equipamentos, viaturas e condições para que os profissionais coloquem essas políticas em prática.
Diálogo com os profissionais e inteligência de Estado
O coordenador do Setorial Nacional de Segurança Pública do PT, Abdael Ambruster, defendeu a reconstrução do diálogo entre o campo progressista e os trabalhadores do setor.
“O que nós estamos fazendo hoje, com a construção desse coletivo, é construir uma ponte que foi destruída em 64”, afirmou.
Ambruster relatou a organização de núcleos dedicados a áreas como inteligência, segurança privada, perícia forense, Defesa Civil e políticas penais. Também citou frentes de combate ao crime organizado, à violência contra as mulheres, à homofobia, à pedofilia e ao nazifascismo.
Segundo ele, essa estrutura amplia a discussão sobre segurança pública e ajuda a incorporar temas como inteligência de Estado e guerra híbrida ao debate político.
Em ação: Coletivo ampliará participação dos trabalhadores
O Coletivo Nacional de Segurança Pública da CUT reunirá profissionais de diferentes categorias para organizar pautas comuns e contribuir com as propostas da Central.
Segundo Jandyra Uehara, embora as corporações atuem separadamente, compartilham reivindicações relacionadas à saúde, carreira, previdência, formação, condições de trabalho, combate ao assédio e negociação coletiva.
“Os trabalhadores da segurança não podem ser apenas operadores da política. Têm que ser formuladores da política”, afirmou.