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João Felicio: Ébola, Zumwalt e a paz do cemitério

Artigo do presidente da CSI (Confederação Sindical Internacional)

Publicado: 02 Setembro, 2014 - 16h30 | Última modificação: 02 Setembro, 2014 - 16h49

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O Ébola atinge vários países da África miserável e faminta, ceifando centenas de vidas. Enquanto isso, os Médicos Sem Fronteiras (MSF), com um mirrado orçamento de pouco mais de 20 milhões de dólares, se desdobram como podem no combate à epidemia, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para a gravidade do momento. Ao mesmo tempo em que minguam os recursos para que a ciência e a tecnologia entrem em campo contra a morte, centenas de bilhões de dólares são esterilizados na indústria armamentista e em seu rastro de destruição.

Conforme a OMS, tanto quanto equipamentos, faltam equipes de médicos, enfermeiros e laboratoristas, além de educadores em saúde comunitária. Tais problemas são potencializados pelas carências e precariedades do sistema de saúde de um Continente historicamente sugado pelas grandes potências – e suas transnacionais -, em que a falta de água potável e saneamento básico é uma das mazelas mais aterradoras. Nesta toada fúnebre em que milhões de pessoas estão expostas – e mais de 800 pessoas já morreram - a lentidão marca o passo da chegada de recursos. Pelo seu empenho, os profissionais que estão se arriscando para salvar outras vidas são merecedores da admiração de todos os povos do mundo e do Nobel da Paz.

Enquanto o Ébola sangra a África, o novo destróier estadunidense Zumwalt se prepara para singrar os mares atrás de novas invasões e conquistas para suas empresas. Sem que o povo americano, carente de empregos, salários e direitos seja consultado, este que é o navio de guerra mais poderoso do mundo – e também o mais caro - custou US$ 7 bilhões dos contribuintes. A bagatela inclui o valor do desenvolvimento do projeto, somado à construção da primeira unidade de uma série de três. Descontado o “investimento”, somente o Zumwalt custou US$ 1,4 bilhão, 70 vezes mais do que todos os recursos aplicados contra o alastramento do Ébola.

Infelizmente, os exemplos destas novas tecnologias do terror são caras, mas nem um pouco raras. Basta ver o resultado dos “drones”, aviões não-tripulados que já vitimaram milhares de pessoas inocentes no Oriente Médio. Em meio ao agravamento da crise econômica que faz com que 842 milhões de pessoas passem fome e mais de dois bilhões de seres humanos tenham graves deficiências nutritivas, os lucros com a exportação de armamentos cresceram 60% na última década.

Turbinado pela propaganda “anti-terror”, o orçamento militar dos Estados Unidos deve alcançar neste ano mais de US$ 638 bilhões, valor que supera o total somado dos outros 10 países que mais gastam neste quesito tão pouco nobre. A situação é tão paradoxal que estas empresas constroem um império à parte, como ficou evidenciado recentemente na agressão do governo de Israel contra o povo palestino, quando abasteceram a máquina de guerra sionista via Pentágono, contra manifestações de seu próprio povo e sem comunicar o seu próprio governo.

Detentores do maior complexo industrial do planeta, os EUA são responsáveis por 30% das armas exportadas, seguidos pela Rússia (26%), Alemanha (7%), China (6%), França (5%) e Reino Unido (4%). Até mesmo o Brasil, com tantos e tão sérios problemas estruturais a serem enfrentados, se transformou num pequeno exportador de armamentos.

Dados do Instituto de Investigação da Paz de Estocolmo (SIPRI) apontam que as vendas mundiais de armas e serviços militares das cem maiores empresas de armamento e equipamento bélico alcançaram quase meio trilhão de dólares em 2012. No topo da lista, cinco empresas com altíssimo investimento em tecnologia: Lockheed Martin (EUA), maior fornecedora de equipamentos militares do Pentágono, US$ 36 bilhões; Boeing (EUA), US$ 27,6 bilhões; Bae Systems (Reino Unido), US$ 26,9 bilhões; Raytheon (EUA), US$ 22,5 bilhões e General Dynamics (EUA), US$ 20,9 bilhões. Um montante tamanho de recursos não teria como deixar de ter impacto nas decisões de muitos governos, já que a indústria bélica se movimenta justamente com a existência de algum tipo de guerra. E, no caso, quanto pior e maior, melhor.

É chegada a hora de construir uma nova ordem mundial baseada na justa distribuição de riqueza e de poder, a fim de que sejam alocados na produção, na educação, na saúde, na habitação e no transporte - setores em que nossos países são tão carentes - os recursos esterilizados na especulação e na indústria da morte. Ao lado do povo africano e dos povos de todo o mundo, lutemos pela vida. Abaixo a paz dos cemitérios!

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