Escrito por: Walber Pinto

Dados desmentem Flávio Bolsonaro: alimentos subiram mais no governo de seu pai

No governo de Jair Bolsonaro a inflação dos alimentos superou a inflação geral. No terceiro mandato de Lula, os preços, inclusive os das carnes, foram menores e o rendimento real dos trabalhadores cresceu mais

Roberto Parizotti/CUT
Março de 2021 - Avenida Paulista

A comparação entre os preços dos alimentos nos governos de Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT) mostra que a inflação da comida foi mais alta durante a gestão bolsonarista. Apesar de publicações da extrema direita nas redes sociais tentarem comparar preços isolados para atribuir ao atual governo uma alta generalizada dos alimentos, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um cenário diferente quando se considera a variação acumulada dos preços ao longo dos períodos.

Um estudo comparativo com dados do IBGE, compilado pelo economista Sandro Silva, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), indica que a inflação de alimentos e bebidas foi maior durante o governo Bolsonaro do que nos dois primeiros anos da atual gestão de Lula.

Além disso, a renda dos trabalhadores no governo Lula teve crescimento real, enquanto no período bolsonarista, foi reduzida a capacidade de compra das famílias. Isso significa que a comida subiu muito acima da inflação geral, comprometendo uma parcela maior do orçamento das famílias, que destinam uma parcela maior da renda à alimentação. É o caso, principalmente, dos trabalhadores de baixa renda.

Alimentos pesaram mais no bolso durante Bolsonaro

Entre 2019 e 2022, a inflação geral, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulou alta de 26,94%. No mesmo período, os preços do grupo Alimentação e Bebidas aumentaram 46,24%, enquanto a alimentação consumida em casa ficou 56,16% mais cara.

No levantamento comparativo apresentado pelo Dieese, os reajustes dos alimentos também aparecem acima do índice geral durante o governo Bolsonaro.

Nos dois primeiros anos do governo Lula, entre 2023 e 2024, o cenário foi diferente. A inflação geral acumulada ficou em 9,67%, enquanto o grupo Alimentação e Bebidas registrou alta de 8,80%. Já os alimentos consumidos em casa tiveram aumento de 7,67%. Ou seja, no atual governo Lula, os preços dos alimentos subiram menos do que a média dos demais produtos e serviços.

Os dados do Dieese também apontam que, durante o governo Bolsonaro, a inflação acumulada dos alimentos e bebidas foi de aproximadamente 27% em uma das séries consideradas, com aumentos de 56% na alimentação em casa e de 25% na alimentação fora do domicílio.

Nos dois primeiros anos do governo Lula, a inflação acumulada indicada nessa comparação foi de 9,67%, enquanto a alimentação fora de casa registrou alta de 12%.

Renda dos trabalhadores foi maior sob Lula

Além de comparar a evolução dos preços, é necessário observar quanto os trabalhadores recebiam e o que conseguiam comprar com seus salários.

Segundo o Dieese, o rendimento médio real dos trabalhadores ocupados, efetivamente recebido no trabalho principal, cresceu apenas 0,48% durante o governo Bolsonaro. O valor passou de R$ 3.100 no quarto trimestre de 2018 para R$ 3.115 no quarto trimestre de 2022.

Na prática, o aumento foi muito pequeno diante da alta dos preços dos alimentos no período. Como a comida ficou mais cara do que a inflação geral, a renda disponível para outras despesas também ficou mais pressionada.

No governo Lula, por outro lado, o rendimento médio real foi bem maior: 7,42% nos dois primeiros anos da gestão, chegando a R$ 3.346 no quarto trimestre de 2024.

Preço das carnes também mostra diferença entre os governos

A comparação dos preços das carnes reforça a diferença entre os períodos. De acordo com o IPCA, medido pelo IBGE, o preço das carnes subiu 17,75% nos primeiros 44 meses do terceiro mandato de Lula, entre janeiro de 2023 e agosto de 2026.

No mesmo intervalo do governo Bolsonaro, entre janeiro de 2019 e agosto de 2022, a alta havia sido de 72,84%, aproximadamente quatro vezes o aumento registrado no governo atual.

A diferença ajuda a dimensionar o impacto da inflação sobre um alimento importante na mesa dos brasileiros. Como ocorre com os demais itens da alimentação, a alta das carnes pesa proporcionalmente mais no orçamento das famílias de menor renda.

O movimento acompanha a evolução dos preços dos alimentos em geral: entre 2019 e 2022, a comida subiu bem acima da inflação; já entre 2023 e 2026, a alta ficou abaixo dela, conforme os dados apresentados no levantamento.

Isso não significa que os preços tenham deixado de subir no governo Lula. Significa que, nos períodos comparados, a velocidade de aumento foi menor, especialmente no caso das carnes.

Dados comparativos dos alimentos

Governo Bolsonaro (2019–2022)

Governo Lula (2023–2024)

Preço das carnes nos primeiros 44 meses de cada governo