Entre pioneirismo, arte, ativismo e política, pessoas trans marcaram a história ao enfrentar a violência, disputar narrativas e abrir caminhos por direitos e reconhecimento.
Ao longo da história, pessoas trans desafiaram a invisibilização, enfrentaram a violência e abriram caminhos para que novas gerações pudessem existir com mais dignidade. No Brasil e no mundo, essa luta ganhou rosto, voz e corpo em trajetórias que atravessam séculos, territórios e áreas como cultura, política, esportes, música e ativismo social.
Esta matéria elenca alguns dos importantes nomes do universo trans ao longo da história – pessoas que fizeram e fazem história em suas áreas como cultura, moda, arte e política.
Para Walmir Siqueira, secretário de políticas LGBTQIA+ da CUT, lembrar essas trajetórias não é apenas um exercício de memória, mas um gesto político. Segundo ele, a visibilidade trans se constrói ao reconhecer quem abriu caminhos, muitas vezes em contextos de extrema repressão, e quem segue disputando espaços hoje, especialmente no mundo do trabalho e na vida pública.
Ao comentar sobre figuras trans que marcaram e seguem marcando a luta por visibilidade no país, Walmir ressalta que algumas trajetórias se tornam indispensáveis não apenas pela projeção pública, mas pelo impacto concreto que produzem na vida coletiva.
Política institucional e disputa por igualdade
Erika Hilton, deputada federal (PSOL): apontada por Walmir como um dos principais nomes da atualidade, Erika Hilton se destaca por uma atuação que vai além da pauta LGBTQIA+. Segundo ele, sua presença no Congresso Nacional dialoga com temas estruturais da sociedade brasileira, rompendo barreiras históricas impostas à população trans no campo do respeito institucional e do reconhecimento como sujeito político em igualdade de condições.
Walmir chama atenção para a participação da deputada em debates como o do fim da jornada de trabalho 6×1, uma pauta que afeta diretamente trabalhadores e trabalhadoras submetidos às condições mais precarizadas do mercado de trabalho. Para ele, essa atuação amplia o alcance da representatividade trans ao inserir essas vozes em discussões centrais da agenda nacional.
Duda Salabert, professora e deputada federal: a trajetória de Duda Salabert também integra esse processo de ampliação da presença trans na política institucional, dialogando com pautas como educação, combate à violência e políticas públicas inclusivas.
Kátia Tapety: foi Vereadora e vice-prefeita de Oeiras (PI) e entrou para a história como a primeira pessoa transexual eleita para um cargo político no Brasil, tornando-se referência no debate sobre participação política e direitos civis.
Erika Malunguinho, ex-deputada estadual (SP), foi a primeira mulher trans eleita deputada estadual no Brasil. Construiu sua trajetória articulando cultura, política e debates sobre identidade, território e direitos humanos.
Bruna Benevides, presidenta da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais): segundo Walmir, Bruna Benevides se destaca pela capacidade de organização política e pelo diálogo institucional. Sua atuação em conselhos nacionais e espaços de formulação de políticas públicas é marcada pela articulação entre a pauta trans e outros debates, como o das mulheres, combinando incidência política, formação e construção coletiva.
Indianara Siqueira, fundadora da Casa Nem: figura central na militância contemporânea, Indianara construiu sua trajetória a partir do acolhimento, da denúncia de violações de direitos e da articulação de redes de apoio para pessoas trans em situação de vulnerabilidade.
Arte, cultura e enfrentamento à repressão
Ney Matogrosso, cantor e intérprete. Embora não seja uma pessoa trans, Ney Matogrosso é citado por Walmir como uma referência fundamental. Sua trajetória artística, marcada pelo enfrentamento à ditadura militar e pela ruptura de padrões de gênero e comportamento, ampliou possibilidades de expressão e existência para pessoas dissidentes de gênero, mesmo antes da visibilidade pública do debate trans.
Rogéria, atriz e cantora, conhecida como “a travesti da família brasileira”, alcançou reconhecimento no teatro e na televisão, tornando-se referência também fora do país.
Roberta Close, modelo e personalidade midiática. Nos anos 1980 e 1990, consolidou-se como o maior símbolo trans do Brasil, ocupando capas de revistas, programas de TV e debates públicos sobre identidade de gênero.
Claudia Wonder, cantora, performer e ativista. Unificou música, contracultura e ativismo, especialmente durante o enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS, afirmando a arte como ferramenta política.
Linn da Quebrada, atriz, cantora e performer: representa uma geração que articula estética, discurso político e vivência trans no cinema, na música e nas artes visuais.
Liniker, cantora: construiu uma trajetória de destaque nacional e internacional, tornando-se a primeira mulher trans a vencer um Grammy Latino.
Catto, artista trans não binária é cantora, compositora, instrumentista, ilustradora e designer, com atuação reconhecida na música e nas artes visuais.
Pioneiras da resistência e da sobrevivência
Xica Manicongo, referência histórica do século XVI. Reconhecida como a primeira travesti registrada no Brasil, foi escravizada em Salvador (BA) e vivia de acordo com sua identidade feminina em um contexto de extrema violência colonial e religiosa.
Tiana Cardeal, travesti e referência de longevidade: Considerada uma das travestis mais longevas do país, construiu sua história de resistência cotidiana em Governador Valadares (MG).
Brenda Lee, ativista e líder comunitária. Criadora do Palácio das Princesas, espaço de acolhimento para travestis em São Paulo durante os anos 1980, tornou-se símbolo do cuidado coletivo como forma de militância.
Visibilidade construída nas ruas
Walmir também destaca artistas e militantes que, há décadas, constroem visibilidade trans nas ruas e nas paradas do orgulho LGBTQIA+. Segundo ele, são trajetórias marcadas pelo compromisso, pela presença constante e pela disposição em ocupar espaços públicos, muitas vezes sem reconhecimento institucional, mas com forte impacto simbólico para a comunidade.
Salete Campari
Walmir Siqueira a define como uma referência incontornável da militância trans no Brasil, especialmente pelo papel que desempenhou em um período de extrema repressão e violência.
Segundo ele, Salete representa uma geração que enfrentou a marginalização sem qualquer rede de proteção institucional, construindo a luta política a partir da sobrevivência diária, da ocupação dos espaços públicos e da organização coletiva.
Para Walmir, lembrar sua trajetória é reconhecer que a história do movimento trans foi edificada muito antes da visibilidade midiática ou das políticas públicas, por pessoas que sustentaram a resistência quando existir já era, por si só, um ato político.
Referências internacionais e diálogo global
Lili Elbe: foi uma artista de sucesso mais conhecida com esse nome. Sua maior significância histórica vem de ter sido uma das primeiras pessoas a submeter-se a uma cirurgia de redesignação sexual. Sua história foi contada no filme “A garota dinamarquesa”.
Marsha P. Johnson: foi uma drag queen, travesti e ativista americana pela libertação gay, conhecida como um dos ícones da Revolta de Stonewall, em 1969, em Nova York, nos Estados Unidos, quando frequentadores do bar Stonewall se rebelaram contra a cotidiana opressão e violência policial contra a comunidade queer na época
Sylvia Rivera: também marcou o ativismo na Revolta de Stonewall e na criação de redes de apoio para pessoas trans em situação de rua.
Miss Major, Laverne Cox, Angela Ponce, Jamie Clayton, Nicole Maines foram mulheres trans que ampliaram a representação trans em áreas como política, audiovisual, moda e cultura pop.
Wendy Carlos é compositora e musicista estadunidense, vencedora de três Grammys Awards, conhecida por seu pioneirismo na música eletrônica, sendo uma das primeiras artistas a utilizar sintetizadores. Nascida em 1939, ela tem em seu currículo a trilha sonoroa de filmes de sucesso, entre eles, Laranja Mecânica (1971) e Iluminado (1980), de Stanley Kubrick e Tron, clássico da Disney, de 1982.
E por falar em cinema, as irmãs Lilly e Lana Wachowski, que revolucionaram o cinema com a série de filmes Matrix.
Outros nomes
Figuras que também desafiaram sistemas no Brasil e no mundo são a cartunista Laerte Coutinho, considerada uma das artistas mais importantes da área no país
Tifanny Abreu, Lea T, Valentina Sampaio são pessoas trans que ampliaram a presença trans no esporte, na moda, no jornalismo e nas artes visuais.
Já Majur Harachell Traytowu é uma liderança indígena, primeira mulher trans indígena a se tornar cacica, liderando a aldeia Apido Paru (MT), ampliando o debate sobre identidade de gênero em contextos originários.