Escrito por: CUT Nacional

CUT repudia desmonte na fiscalização contra trabalho escravo

Em nota, Central denuncia retrocessos alarmantes no combate ao trabalho escravo

Agência Brasil

Unaí, Minas Gerais, manhã de 28 de janeiro de 2004: Erastóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva, auditores fiscais do trabalho, e o motorista Ailton Pereira de Oliveira faziam vistoria em fazendas na zona rural da região. Funcionários do Ministério do Trabalho, eles investigavam denúncias de trabalho escravo quando o veículo onde viajavam foi metralhado na rodovia MG-188, entre Unaí e Natalândia. Nenhum deles sobreviveu.

Em outubro de 2009, em homenagem às vítimas e a todos e todas que atuam no combate ao trabalho escravo, foi instituído o 28 de janeiro como o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.

Quase dez anos depois do crime, em setembro de 2013, ocorreram as condenações por homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha dos pistoleiros contratados para realizar a emboscada: Rogério Allan Rocha Rios, Willian Gomes de Miranda e Erinaldo Vasconcelos Silva. No final de 2015, foram condenados também os fazendeiros Norberto e Antuério Mânica (ex-prefeito de Unaí) como mandantes do crime, bem como Hugo Alves Pimenta e José Alberto de Castro como intermediários.

Historicamente, a violência tem sido a resposta padrão dada pelo agronegócio e pela indústria à luta contra o trabalho em condições análogas à da escravidão; uma violência que se expressa em perseguições, ameaças, atentados e assassinatos, mas também nas leis, normas e orçamentos públicos.

Neste sentido, uma das frentes de atuação do golpismo tem sido adotar políticas que, na prática, impedem a fiscalização do trabalho escravo. A este respeito, é ilustrativo que o governo ilegítimo de Temer tenha reduzido o orçamento destinado à Secretaria de Inspeção do Trabalho, responsável pelas ações de fiscalização do trabalho escravo. Por meio dos decretos 9.018 (30/03/2017) e 9.040 (28/04/2017), os recursos do Tesouro para o órgão foram reduzidos de R$ 33,2 milhões para R$ 10 milhões, representando um corte de mais de 70% no aporte desses recursos.

Portanto, além de instituir a Emenda Constitucional 95, que congela os investimentos públicos em áreas essenciais por 20 anos, os golpistas promoveram cortes adicionais que inviabilizam também a fiscalização do trabalho infantil e violam frontalmente a Convenção 81 da OIT, sobre a fiscalização do trabalho.

Como se não bastasse, o governo Temer publicou a portaria 1.129 (16/10/2017), que reduz o conceito de escravidão contemporânea, definido a partir da identificação de pelo menos uma das quatro situações: trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes ou jornada exaustiva.  

Ao estabelecer o cerceamento de liberdade como requisito para caracterizar condições degradantes e jornada exaustiva de trabalho, estima-se que com a portaria cerca de 90% dos processos e investigações sobre trabalho escravo acompanhados pelo Ministério Público do Trabalho deixariam de ser classificadas como análogas à escravidão.

A enérgica reação contrária de entidades nacionais e internacionais provocou a suspensão da portaria pelo Supremo Tribunal Federal e o recuo do governo, que já no apagar das luzes de 2017 publicou a portaria 1.293 (28/12/2017).

Entretanto, apesar de na nova portaria não mais constar o cerceamento de liberdade como condição para caracterizar condições degradantes e jornada exaustiva de trabalho e a necessidade de autorização do Ministro do Trabalho para a divulgação da “lista suja” das empresas que contrataram trabalhadores em condições análogas à escravidão, o novo texto guarda em si a permissão para violação programada de suas disposições: afinal, de que modo a “Administração Central do Ministério do Trabalho e as Superintendências Regionais do Trabalho deverão prover a Inspeção do Trabalho de todos os recursos necessários para a fiscalização e combate ao trabalho em condições análogas às de escravo” (art. 6º) se os recursos do Tesouro Nacional repassados são deliberadamente irrisórios? Olhemos para a realidade: dispondo de menos de 30% dos recursos antes destinados à fiscalização do trabalho escravo, as instâncias responsáveis pela fiscalização mínguam a passos largos.

Como consequência dos ataques golpistas, o combate ao trabalho escravo obteve resultados dramaticamente decrescentes: em 2015, foram realizadas 143 operações de fiscalização que resultaram em 1.010 trabalhadores resgatados; em 2016, foram realizadas 115 operações que resultaram em 885 trabalhadores resgatados; em 2017, realizou-se apenas 88 operações, que resgataram 341 trabalhadores, a menor marca desde 1998.           

Os retrocessos golpistas nessa área tornam-se ainda mais alarmantes na medida em que a realidade assolada das condições de fiscalização está conjugada com a crescente vulnerabilidade ao trabalho escravo, decorrente da antirreforma trabalhista e da terceirização irrestrita, que dizimam direitos trabalhistas fundamentais duramente conquistados pela classe trabalhadora.

Por isso, em 2018, a Central Única dos Trabalhadores (CUT-Brasil) lembra o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo com o mais enérgico repúdio à permissividade com que o governo ilegítimo e toda a coalizão golpista lidam com o trabalho escravo e manifesta irrestrito combate aos golpes desferidos contra a classe trabalhadora.

FORA TEMER!

NENHUM DIREITO A MENOS!

Sérgio Nobre -  Secretário Geral

Jandyra Uehara Alves - Secretária Nacional de Políticas sociais e Direitos Humanos