A 2ª etapa do projeto “Povos Indígenas e o Mundo do Trabalho” aconteceu no ATL, em Brasília. Iniciativa articula movimento sindical, lideranças indígenas e governo para enfrentar desigualdades
A segunda etapa do projeto “Povos Indígenas e o Mundo do Trabalho”, realizada na noite de 08/04, durante o Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, reforçou a construção de uma aliança entre o movimento sindical e os povos originários, em defesa de direitos e de um modelo de desenvolvimento mais justo.
A atividade dá continuidade ao encontro promovido na sede da CUT, em São Paulo, com a presença da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e marca um avanço no diálogo direto com lideranças indígenas no principal espaço de mobilização desses povos no país, o ATL.
Organizado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária da CUT, em parceria com a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), com apoio da Confederação Geral Italiana do Trabalho da região da Toscana (CGIL Toscana), o encontro reuniu representantes sindicais, indígenas e do poder público em torno de um diagnóstico comum: trabalhadores do campo, das cidades, das águas e das florestas enfrentam desafios cada vez mais semelhantes, como a precarização do trabalho e a pressão sobre seus modos de vida.
No centro do debate está o reconhecimento de que os povos indígenas já desenvolvem, há gerações, formas próprias de organização do trabalho, baseadas na coletividade, no respeito à natureza e na partilha.
A proposta é fortalecer essas práticas e conectá-las a políticas públicas e redes de comercialização. Entre as ações concretas discutidas estão o mapeamento de iniciativas produtivas e a criação de cestas de produtos indígenas, a serem adquiridas e comercializadas por sindicatos da CUT, aproximando produtores e consumidores e ampliando a geração de renda nas comunidades.
“A ideia é construir esse processo em conjunto, desde a produção até a comercialização, fortalecendo a qualidade e o valor dos produtos”, explicou o secretário de Economia Solidária da CUT, Admirson Medeiros Ferro Jr. (Greg).
O diálogo com o governo federal também busca consolidar essas iniciativas como políticas estruturantes.
“O processo precisa respeitar a cultura e a diversidade dos povos indígenas. Estamos avançando para que essa política seja construída com participação e reconhecimento”, afirmou o secretário nacional de Economia Popular e Solidária, Fernando Zamban.
Mas falar de trabalho indígena exige, necessariamente, falar da terra. É nela que se sustentam a produção, a cultura e a identidade desses povos — e é também sobre ela que recaem disputas históricas e tentativas de deslegitimação de direitos.
O coordenador político da APIB, Paulino Montejo, destacou a contradição desse cenário: “Os povos indígenas no mundo inteiro protegem grande parte da biodiversidade, mas seguem sendo pressionados e atacados”.
A dirigente da Condsef, Mônica Carneiro, chamou atenção para a distorção presente no debate público sobre a distribuição de terras no Brasil: “muita terra para pouco índio”.
“Essa narrativa inverte a realidade. O que existe é muita terra concentrada nas mãos de poucos latifundiários”, disse.
Essa relação direta com a terra também ajuda a explicar por que os povos indígenas estão entre os mais impactados pelas transformações ambientais em curso.
As mudanças nos ciclos naturais já afetam a produção, a alimentação e o equilíbrio dos territórios indígenas, ampliando a vulnerabilidade dessas populações.
Para o coordenador-geral de Atividades Produtivas da Funai, Gabriel Fernandes, enfrentar esse cenário exige medidas estruturais.
“A solução para a crise climática passa pela defesa dos territórios, pela demarcação das terras indígenas e pelo reconhecimento dos territórios tradicionais”, afirmou.
Nesse contexto, o papel do Estado é decisivo — tanto na proteção desses espaços quanto na formulação de políticas públicas que dialoguem com a realidade dos povos originários.
Para além das discussões, a programação também buscou dar visibilidade concreta a essas formas de trabalho.
Uma exposição fotográfica apresentou registros de atividades como produção agroecológica, artesanato, educação e atuação na saúde, evidenciando a diversidade e a potência das práticas desenvolvidas nos territórios.
O acervo é da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e as fotos foram selecionadas pelo fotógrafo Mário Vilela. A coletânea também inclui imagens produzidas por fotógrafos indígenas.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) participou da iniciativa, representada por sua presidenta, Fátima da Silva, que destacou o papel da entidade na organização dos trabalhadores da educação pública em todo o país, nas redes municipais e estaduais.
Segundo ela, a CNTE mantém um coletivo de professores indígenas que atua diretamente na construção das pautas da instituição. Entre as principais frentes estão a defesa de formação específica e o fortalecimento de políticas construídas em diálogo com os educadores indígenas, respeitando suas realidades e saberes.
A dirigente também afirmou que a entidade vai incorporar o projeto conduzido pela CUT à sua agenda de atuação.
“Vamos trabalhar pelo reconhecimento da nossa força de trabalho, independentemente da etnia ou da raça de cada trabalhador e trabalhadora”, declarou.
Com o acúmulo do debate realizado no ATL, a iniciativa agora segue para outros estados, como Amapá, Ceará, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, ampliando o diálogo e fortalecendo a articulação entre o movimento sindical e os povos indígenas.
Principal mobilização indígena do país, o Acampamento Terra Livre reúne, todos os anos, milhares de lideranças em Brasília para definir estratégias de luta e dar visibilidade às suas pautas. Este ano, o ATL acontece de 05 a 11 de abril, em Brasília (DF).
Mais do que um evento, o ATL se consolidou como um espaço de resistência, articulação e construção coletiva diante dos desafios históricos enfrentados pelos povos originários.