Escrito por: Luiz R Cabral

CUT debate o que tem em comum entre o fascismo, polícia e criminalização da pobreza

O 3º encontro dos Ciclos de Diálogos Formativos abordou o avanço da extrema direita, encarceramento em massa, escolas cívico-militares, ataques aos direitos sociais e à organização da classe trabalhadora

CUT / SECOM

Em meio à luta da classe trabalhadora pelo fim da escala 6x1 e pela regulamentação da Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dirigentes sindicais e especialistas alertaram para o avanço de pautas autoritárias e da criminalização dos movimentos sociais no país. O debate ocorreu durante o terceiro encontro dos “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque — Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista”, coordenado pela Central Única dos Trabalhadores, por meio da Secretaria Nacional de Formação e promovido pela Escola Sindical 7 de outubro, na noite da última quinta-feira (14).

Realizado virtualmente, o encontro reuniu trabalhadores, trabalhadoras e especialistas de diferentes regiões do país para discutir os impactos do neoliberalismo, da militarização e da extrema direita sobre a democracia, os direitos sociais e a organização sindical.

Participaram do debate o historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marco Mondaini, e a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Denise Romano. A mediação foi feita por Marcelle Amador, coordenadora geral da Escola 7 de Outubro.

O encontro começou com o resgate do Massacre de Ipatinga, ocorrido em 1963, símbolo da repressão contra trabalhadores organizados durante o processo de industrialização do país. A memória do episódio foi apresentada como ponto de partida para discutir o avanço contemporâneo da violência política, da militarização e do fascismo social.

O debate

Durante o debate, os participantes defenderam que o fascismo não deve ser tratado como um fenômeno encerrado no século passado. Segundo Mondaini, a extrema direita atualiza práticas autoritárias em novas formas políticas e sociais. “O passado não passa. O passado sempre se faz presente de várias maneiras e em várias medidas na atualidade”, afirmou.

O professor também alertou para a necessidade de organização permanente das forças democráticas diante do avanço autoritário. “A vigilância democrática não é uma tática para uma conjuntura específica; ela deve ser uma estratégia permanente”, declarou.

Ao relacionar neoliberalismo e repressão, Mondaini afirmou que a retirada de direitos sociais veio acompanhada da expansão do encarceramento e da violência estatal. “O neoliberalismo só foi possível com um Estado mínimo para a área social e máximo para a área penal”, disse. Segundo ele, “a política de criminalização da pobreza é, na verdade, uma política de criminalização da classe trabalhadora”.

O historiador citou dados do encarceramento em massa no Brasil e destacou que a violência estatal atinge principalmente jovens negros das periferias. De acordo com ele, a população prisional brasileira passou de cerca de 90 mil pessoas em 1990 para mais de 850 mil atualmente. Ao tratar da letalidade policial, foi direto: “Ninguém morre em confronto tomando tiro nas costas”.

Mondaini também criticou a política de guerra às drogas e defendeu alternativas baseadas em direitos humanos e inteligência financeira para combater organizações criminosas. “O grande caminho é seguir o dinheiro: seguir o dinheiro para compreender as conexões entre crime organizado, lavagem de dinheiro e grande capital”, afirmou.

A militarização da educação apareceu como outro eixo central do debate. Denise Romano criticou os programas de escolas cívico-militares e afirmou que o modelo representa disputa ideológica, desvalorização da profissão docente e exclusão da juventude periférica.

“O programa de escolas cívico-militares foi também um processo de transferência de renda para militares da reserva, além da disputa ideológica e da descaracterização da nossa profissão”, afirmou a dirigente sindical.

Segundo Denise, o governo de Minas Gerais tentou ampliar o programa mesmo após a revogação do decreto federal pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela afirmou que o sindicato conseguiu barrar parte da expansão por meio de ações no Tribunal de Contas do Estado.

A dirigente também criticou o discurso de que a militarização resolveria problemas de violência nas escolas. “A falsa ideia de que um programa cívico-militar traria segurança para a educação era o que o governo vendia para as pessoas”, declarou.

Para Denise, o modelo exclui as juventudes populares e criminaliza suas expressões culturais. “Os meninos do hip hop, do rap, do grafite, as meninas que gostam do funk, as meninas com alargador ou cabelo black power não cabem nesse projeto de escola cívico-militar”, afirmou.

Ao final do encontro, os participantes defenderam o fortalecimento da formação política, da organização sindical e das políticas públicas baseadas em direitos humanos como formas de enfrentar o avanço da extrema direita e da violência social. Denise Romano reforçou a necessidade de resistência coletiva. “A gente não pode se dar ao luxo de desistir de fazer os enfrentamentos”, afirmou.

O quarto encontro dos “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque — Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista” será realizado no próximo dia 28 de maio.