O sexto Encontro do Ciclo de Diálogos Formativos trouxe a filósofa Márcia Tiburi para discutir como o machismo estrutura o fascismo: "a tecnologia do fascismo hoje se chama inteligência artificial"
A Central Única dos Trabalhadores (CUT), por meio da Secretaria Nacional de Formação, realizou, na última quinta-feira (25), o sexto encontro do Ciclo de Diálogos Formativos, com o tema "Fascismo, Machismo, Misoginia e Ofensiva Patriarcal". A atividade reuniu, de forma online, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes para discutir como o patriarcado sustenta o avanço do fascismo contemporâneo e seus impactos sobre a democracia, o mundo do trabalho e a organização da classe trabalhadora.
Participaram do encontro a filósofa Márcia Tiburi, responsável pela conferência principal; a presidenta da Confederação de Municipais das Américas (CONTRAM/ISP), Junéia Batista; a coordenadora de Formação da Escola Sindical Sul, Adriana Maria, que mediou os debates; e a secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti, que fez a saudação institucional e destacou a importância da formação política como instrumento para fortalecer a democracia e a ação sindical.
O eixo central do seminário foi a defesa de que fascismo e machismo não constituem fenômenos isolados, mas dimensões de um mesmo projeto de poder. Segundo os participantes, o patriarcado organiza hierarquias sociais, naturaliza desigualdades e reforça mecanismos de exploração que atingem diretamente as mulheres e a classe trabalhadora.
Feminicídios revelam urgência do debate
Antes da conferência principal, Adriana Maria apresentou dados que evidenciam o agravamento da violência contra as mulheres na Região Sul do país. Em Santa Catarina, foram registrados 22 feminicídios até abril de 2026, quase metade deles apenas naquele mês. No Paraná, ocorreram 109 feminicídios em 2024, alta de 34,6% em relação ao ano anterior. Já o Rio Grande do Sul contabilizava, até maio deste ano, 133 casos, número superior ao registrado no mesmo período de 2025. Para a mediadora, os indicadores demonstram que o “avanço da violência de gênero exige respostas políticas e sociais permanentes”.
Fascismo e patriarcado
Ao iniciar sua conferência, Márcia Tiburi afirmou que fascismo e patriarcado formam uma mesma estrutura de dominação. Antes de apresentar os conceitos que embasaram sua análise, relatou a perseguição política sofrida após a publicação do livro Como Conversar com um Fascista, em 2015. A filósofa descreveu ameaças, campanhas de difamação e episódios de violência que culminaram em seu afastamento do Brasil, ressaltando que o fascismo produz mecanismos concretos de intimidação e silenciamento contra mulheres, intelectuais e defensores da democracia. "O fascismo existe como prática. Ele acontece concretamente na vida das pessoas", afirmou.
Para explicar como o autoritarismo conquista apoio social, Tiburi apresentou o conceito de psicopoder, definido como uma forma de poder que atua sobre a subjetividade das pessoas. Segundo ela, o fascismo mobiliza medo, insegurança e humilhação para moldar comportamentos e produzir aquilo que chamou de "identificação com o agressor". "É um cálculo sobre nossa interioridade, nossa subjetividade e nossa consciência", afirmou, ao explicar como lideranças autoritárias buscam influenciar emoções para obter adesão política.
Outro conceito desenvolvido por ela foi o da tecnologia da encenação grotesca. Para a filósofa, lideranças autoritárias recorrem deliberadamente ao ridículo, ao choque moral e à violência simbólica para ampliar sua capacidade de mobilização. "O fascista tem que ter uma cena. E a cena do fascista causa um tal efeito de poder em cima das pessoas que elas sucumbem ao fascista", afirmou. Segundo Tiburi, essa estratégia transformou o grotesco em uma tecnologia política permanente para banalizar práticas antidemocráticas e normalizar discursos de ódio.
Patriarcado estrutura o mundo do trabalho
A filósofa também relacionou patriarcado, capitalismo e organização do trabalho. Segundo ela, a divisão sexual do trabalho continua sustentando a exploração econômica ao atribuir às mulheres o trabalho de cuidado e a reprodução da vida sem reconhecimento social e econômico.
"Mesmo que o cara passe o dia inteiro na fábrica, ele ainda terá, quando chega em casa, uma mulher que fez comida para ele (...). Essa mulher vai trabalhar por ele para segurar a família", afirmou. Para Tiburi, essa lógica invisibiliza o trabalho doméstico, reduz custos para o capital e mantém privilégios masculinos que atravessam todas as classes sociais.
Dentro dessa mesma análise, Márcia apresentou a categoria do macho limítrofe, utilizada para explicar sujeitos que constroem sua identidade a partir da necessidade permanente de demonstrar poder e superioridade. "O que ele tiver, ou o que não tiver, ele vai usar contra uma mulher para poder se manifestar como uma figura do superpoder", disse.
Segundo ela, essa lógica ajuda a compreender diferentes formas contemporâneas de violência contra mulheres, pessoas LGBTQIA+, negros, migrantes e outros grupos historicamente vulnerabilizados.
Outro tema discutido foi o impacto das redes sociais e da inteligência artificial sobre a democracia. Segundo os participantes, a ausência de mecanismos de regulação favorece a disseminação de desinformação, discursos de ódio e novas formas de violência digital, especialmente contra mulheres. Na avaliação dos participantes, essas ferramentas ampliam justamente os mecanismos de manipulação dos afetos descritos por Tiburi ao abordar o conceito de psicopoder. A filósofa alertou que a inteligência artificial passou a integrar esse processo de dominação ao potencializar a circulação de conteúdos violentos e discriminatórios. "A tecnologia do fascismo hoje se chama inteligência artificial", afirmou, acrescentando que a falta de controle sobre essas plataformas facilita a produção e a disseminação de ataques, imagens manipuladas e outras formas de violência contra mulheres e grupos vulnerabilizados.
Movimento sindical
Ao relacionar a discussão teórica à prática sindical, Junéia Batista defendeu que o combate ao fascismo passa necessariamente pelo enfrentamento do machismo dentro das próprias organizações da classe trabalhadora.
Segundo ela, avanços institucionais, como as políticas de paridade, representam conquistas importantes, mas não eliminam automaticamente relações de poder historicamente construídas. "Vivemos dias muito difíceis quando os machos pensam que só eles podem estar no comando, quando pensam que só eles podem estar acima dos cargos", afirmou.
A dirigente lembrou ainda que o movimento sindical protagonizou a construção da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que reconheceu a violência e o assédio como problemas presentes no mundo laboral. "Só em 2016 a OIT topou debater com a gente que existe violência e assédio no mundo do trabalho entre nós, companheiros e companheiras", destacou.
Para ela, ampliar a participação feminina significa garantir que as mulheres ocupem espaços efetivos de decisão e que suas pautas façam parte da agenda política das entidades sindicais. "Nós, mulheres, queremos ter os nossos espaços de poder, assim como os homens já têm. A gente quer ter o direito de falar, dialogar e debater sobre as nossas vidas", afirmou.
Formação política
Ao final do encontro, os participantes defenderam que o fortalecimento da democracia depende do enfrentamento simultâneo ao fascismo, ao patriarcado, ao racismo e às desigualdades sociais produzidas pelo neoliberalismo. Também reafirmaram que a formação política permanece como instrumento estratégico para ampliar a consciência crítica da classe trabalhadora e fortalecer a organização sindical.
Ao encerrar o sexto Ciclo de Diálogos Formativos, a CUT reafirmou seu compromisso com a construção de uma sociedade baseada na democracia, na igualdade de gênero e na valorização do trabalho. A iniciativa integra as ações permanentes da Secretaria Nacional de Formação para fortalecer a organização da classe trabalhadora e enfrentar projetos autoritários que ameaçam direitos sociais e trabalhistas.