Reportagem da revista piauí revela encontro em julho de 2020, em meio à pandemia, com empresários interessados em fechar contrato para fornecer a vacina Covaxin ao governo Jair Bolsonaro
Em julho de 2020, enquanto milhares de brasileiros morriam diariamente em decorrência da Covid-19, o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), filho do então presidente Jair Bolsonaro, participava de uma festa em uma lancha no lago Paranoá, em Brasília, com lobistas e prostitutas. As informações foram publicadas nesta quarta-feira (21) pela revista piauí.
A festa ocorreu em meio à péssima gestão do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia, marcada pelo negacionismo, pela campanha contra a vacinação e pela promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19. A condução da crise sanitária contribuiu para que o Brasil ultrapassasse 700 mil mortes pela doença.
Enquanto milhares de famílias perdiam seus entes queridos, o então presidente desacreditava a eficácia das vacinas, desrespeitava as orientações de profissionais de saúde e chegou a imitar pessoas com falta de ar.
Durante a pandemia, em Manaus, no Amazonas, a crise atingiu um dos momentos mais dramáticos em janeiro de 2021, quando hospitais ficaram sem oxigênio para atender pacientes, provocando mortes por asfixia e expondo o colapso do sistema de saúde. O episódio se tornou um dos símbolos mais graves da condução da pandemia pelo governo federal.
Segundo a piauí, os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, ligados à Precisa Medicamentos, organizaram o encontro para tentar se aproximar do governo Bolsonaro e viabilizar um acordo para fornecer a vacina indiana Covaxin ao Ministério da Saúde. Na ocasião, os empresários afirmavam representar a fabricante do imunizante, a Bharat Biotech.
Com a ajuda do agente de viagens Raphael Barão, Trento e Maximiano organizaram um churrasco a bordo de uma lancha no lago Paranoá, em Brasília. O evento contou com a presença de três prostitutas trazidas de São Paulo. Flávio teria comparecido acompanhado de Alexandre Santini, que, na época, era amigo e sócio do senador em uma loja de chocolates. O estabelecimento foi apontado nas investigações sobre o suposto esquema de rachadinha pelo qual o filho do ex-presidente foi investigado.
De acordo com a revista, a festa durou das 10h30 às 15h. Durante o encontro, foi feita uma compra de R$ 1.949 em um restaurante, e Flávio teria descido à cabine da lancha com uma das prostitutas. Ao final do evento, Trento teria presenteado o senador com um Rolex, relógio de luxo.
Em julho de 2020, o Brasil enfrentava um período de forte avanço da pandemia, com milhares de mortes provocadas pelo coronavírus. Prefeitos e governadores haviam adotado medidas para restringir a circulação de pessoas e conter a disseminação da doença, com o fechamento de escolas, empresas, estabelecimentos comerciais e órgãos públicos.
Naquele momento, as vacinas contra a Covid-19 ainda não haviam chegado ao Brasil. A vacinação no país só começou em janeiro de 2021, meses depois da festa relatada pela piauí.
A crise sanitária foi agravada pela postura do governo Jair Bolsonaro, que questionava a eficácia dos imunizantes, promovia medicamentos sem comprovação científica para prevenir ou tratar a doença e desestimulava medidas recomendadas por autoridades sanitárias. O então presidente também fez declarações que minimizaram a gravidade da Covid-19 e ridicularizaram o sofrimento de pessoas com dificuldades respiratórias.
Trento, Maximiano e Barão foram investigados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, sob suspeita de lavagem de dinheiro, acusações que eles negam. Durante os trabalhos da comissão, Flávio Bolsonaro defendeu a Precisa Medicamentos e chegou a elogiar a diretora da empresa, Emanuela Medrades.
O caso envolvendo a Covaxin se transformou em um dos focos de desgaste do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia. Luis Ricardo Miranda, então chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde, relatou ao Ministério Público ter sofrido pressão incomum para assinar o contrato de compra do imunizante. Diante das suspeitas, a aquisição acabou suspensa.
A negociação levantou questionamentos sobre a atuação de integrantes do governo e as tentativas de viabilizar a compra da vacina indiana. O episódio também foi um dos principais temas investigados pela CPI, que apurou possíveis irregularidades na aquisição de imunizantes e a atuação de agentes públicos e privados durante a crise sanitária.
Ainda segundo a piauí, três meses depois da festa na lancha, Flávio Bolsonaro abriu caminho para que Francisco Maximiano fosse recebido por Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O objetivo do encontro seria discutir a possibilidade de financiamento para um novo empreendimento de Maximiano no setor de telecomunicações.
Na época em que a história veio a público, em reportagem publicada pela revista Veja, Flávio afirmou que não mantinha relações comerciais ou financeiras com Maximiano.
com informações da revista piauí*