7º encontro do Ciclo de Diálogos Formativos da CUT debateu a naturalização do discurso fascista, a disputa do imaginário nas redes e o papel da cultura e da organização coletiva na defesa da democracia
Nos dias de hoje, a disputa política ocorre não apenas nas eleições, nos parlamentos, sindicatos ou mobilizações de rua, mas em especial nas plataformas digitais, nos algoritmos, na linguagem, na circulação de imagens e na produção de narrativas capazes de influenciar a maneira como a sociedade interpreta a realidade. A relação entre essa realidade e o crescimento da extrema direita foi o fio condutor do sétimo encontro do Ciclo de Diálogos Formativos, realizado de forma on-line nesta quinta-feira, 9 de julho. Com o tema “Extrema Direita, Comunicação e Guerra Cultural”, a atividade foi promovida pela Escola Nordeste e pela Secretaria Nacional de Formação da CUT.
O debate teve como convidados o jornalista, escritor, psicólogo e professor Felipe Pena e a bancária, sindicalista, cordelista, escritora e recitadora Susana Morais. Ao longo do encontro, eles abordaram a naturalização de discursos violentos, a ocupação das redes pela extrema direita, a disputa do campo simbólico e a necessidade de fortalecer a formação, a comunicação e a organização da classe trabalhadora.
A abertura do encontro contou com uma intervenção artística em forma de cordel que abordou o funcionamento dos algoritmos, a disseminação da desinformação e a guerra cultural. Em um dos versos, a apresentação sintetizou a lógica das plataformas digitais. "A tela parece livre, mas tem cerca e direção", dizia um dos versos para defender a valorização da cultura, da memória e da participação popular como instrumentos de fortalecimento da democracia.
Naturalização da violência
Felipe Pena iniciou sua exposição afirmando que o fascismo não deve ser compreendido apenas como um fenômeno político recente. Para ele, suas raízes estão ligadas à formação histórica brasileira, marcada pela violência, pela escravidão, pela exclusão e pela misoginia.
O jornalista chamou a atenção principalmente para a naturalização de pessoas e discursos que circulam nos meios de comunicação. Segundo ele, declarações abertamente violentas podem causar indignação, mas a presença recorrente de seus autores na imprensa e no debate público contribui para que essas figuras sejam reconhecidas como interlocutores legítimos.
“O que para mim é mais perigoso é a naturalização dos sujeitos que proferem os discursos”, afirmou. Durante sua análise, Pena citou a participação de Jair Bolsonaro em programas de televisão antes de chegar à Presidência da República e questionou por que personagens ligados à extrema direita continuam recebendo espaço na imprensa, mesmo quando são responsáveis pela divulgação de posições antidemocráticas ou misóginas.
Para explicar como esse processo ocorre, Pena recorreu a estudos sobre a linguagem utilizada pelo nazismo, estabelecendo um paralelo com as estratégias do regime , citando especificamente Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler.
O jornalista explicou que a lógica de manipulação evoluiu com a tecnologia, citando a frase de Goebbels - "uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade". Segundo ele, o impacto dessa tática foi potencializado pelas redes sociais.
"Na época da internet, uma mentira contada uma vez se torna verdade porque uma vez só ela já potencializa um milhão de vezes", disse. Pena argumentou que estrategistas modernos, como Steve Bannon, utilizam essa premissa de forma ainda mais agressiva, operando sob o conceito de que se deve dizer "aquilo que for mais absurdo e quanto mais absurdo for, melhor para a nossa campanha", visando movimentar algoritmos.
O professor citou ainda, como exemplo, a criação e a difusão de expressões utilizadas para desqualificar a esquerda, o feminismo e outros movimentos sociais. A repetição desses termos, disse, contribui para formar um ambiente de “sequestro da cognição pública”, no qual determinadas ideias são assimiladas sem reflexão.
Outro conceito abordado foi o “narcisismo das pequenas diferenças”. Pena explicou que determinados grupos procuram construir sua identidade não apenas a partir do que são, mas sobretudo pela rejeição daqueles dos quais desejam se diferenciar. Esse mecanismo ajudaria a compreender por que parcelas da população trabalhadora se identificam com discursos que reforçam desigualdades sociais e atacam outros trabalhadores.
A conquista do imaginário
Ao responder às perguntas dos participantes, Felipe Pena afirmou que o enfrentamento à extrema direita precisa ocorrer também no campo simbólico. Embora a análise racional e material da sociedade seja indispensável, a comunicação pública, segundo ele, funciona fortemente por imagens, emoções, identificações e símbolos.
“A comunicação pública se organiza no campo do simbólico, que é muito mais inconsciente do que consciente, é muito mais irracional do que racional”, declarou. Para Pena, os setores progressistas precisam produzir pesquisas, campanhas e estratégias capazes de disputar o imaginário social, em vez de dirigir suas mensagens apenas a pessoas que já compartilham das mesmas posições políticas.
Camisa da seleção
A apropriação dos símbolos nacionais pela extrema direita também foi apontada como parte da disputa cultural. Bandeiras, cores, roupas, expressões religiosas e referências à família são utilizadas para criar identificação emocional e apresentar projetos autoritários como se fossem manifestações naturais do patriotismo.
Segundo o jornalista, esse sequestro simbólico foi tão eficaz que muitos cidadãos passaram a sentir desconforto com as cores do próprio país. "Tenho certeza que todo mundo aqui nesta live teve vergonha de andar de camisa do Brasil durante muito tempo e talvez ainda tenha", disse confessando que ele próprio não utilizou os símbolos na última Copa, afirmando que a seleção atual não o representa.
Entretanto, ele elogiou a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em tentar recuperar esses símbolos para toda a nação. "Está certo o Lula em colocar a camisa da seleção. Tá certo o Lula em usar andar com a bandeira brasileira. Não podem sequestrar símbolos, mas sequestraram", disse.
Pena argumenta que é necessário combater a extrema direita no nível simbólico, porque eles entenderam que o imaginário e o emocional devem ser conquistados para naturalizar seus discursos. Portanto, ele disse, a atitude de Lula de vestir a camisa e usar a bandeira é uma forma importante de resistência e de disputa por esse imaginário coletivo.
Cultura como formação e resistência
Susana Morais iniciou sua participação por meio do cordel. Em versos, apresentou-se como mulher, artista e ativista e defendeu as conquistas femininas diante das tentativas de retirar direitos e afastar as mulheres dos espaços de decisão.
“As mãos não vamos soltar, nunca iremos nos calar diante do opressor”, recitou. Em seguida, afirmou que a cultura não pode ser vista somente como entretenimento ou distração. Para ela, a arte é um espaço de identidade, formação política e resistência.
“Eu sempre entendi a literatura, a cultura como espaço de formação e de resistência, de resistência cultural”, disse Susana.
A sindicalista relacionou a guerra cultural às tentativas de deslegitimar o feminismo e restringir a autonomia das mulheres. Também destacou as desigualdades existentes no mundo do trabalho, o peso das atividades de cuidado e a baixa presença feminina nos cargos de direção.
Ao tratar da jornada de trabalho, Susana afirmou que a escala 6 por 1 afeta toda a classe trabalhadora, mas recai de forma ainda mais intensa sobre as mulheres, que frequentemente acumulam o emprego remunerado com a responsabilidade pela casa, pelos filhos e pelos cuidados familiares.
Segundo ela, a literatura, o teatro, a poesia e outras manifestações artísticas podem ajudar o movimento sindical a dialogar de maneira mais direta com os trabalhadores e com a população. Em visitas a locais de trabalho, uma poesia ou uma apresentação teatral curta pode transmitir em poucos minutos uma mensagem que dificilmente seria ouvida em um discurso longo, disse.
“Se a gente não arranjar uma linguagem rápida, objetiva, direta, que fale diretamente não só com a categoria, mas também com a população, a gente vai ter discursos de 30 minutos, coisa que uma poesia diz em 3 minutos”, afirmou.
Formação e atuação nas redes
A necessidade de ocupar as plataformas digitais esteve presente em diferentes momentos da fala de Susana. Para ela, o movimento sindical tem experiência na mobilização de rua, nas greves, nos piquetes e no diálogo presencial, mas precisa ampliar sua capacidade de atuar nas redes.
“A gente precisa se ouvir, a gente precisa se curtir, a gente precisa compartilhar pra gente poder engajar”, declarou. A sindicalista defendeu que dirigentes, entidades e militantes contribuam para ampliar o alcance dos conteúdos produzidos pelo campo progressista.
Susana ainda reforçou que o enfrentamento à extrema direita passa pelo fortalecimento da formação sindical nos sindicatos, nas centrais, nas comunidades, nas igrejas, nos coletivos e também dentro das famílias.
“É chover no molhado, é clichê, mas é a receita que dá certo. A gente só vai conseguir enfrentar a extrema direita fortalecendo a formação”, afirmou.
Ela também defendeu o reconhecimento dos artistas como trabalhadores e aliados da organização popular. Para Susana, valorizar o trabalho artístico significa convidar artistas para atividades sindicais, formações, reuniões e mobilizações, além de defender as expressões culturais de cada território.
Nesse contexto, criticou a perda de espaço dos artistas nordestinos nas festas juninas e afirmou que o cordel não é apenas uma manifestação literária, mas parte da identidade e da memória do povo nordestino.
A sindicalista encerrou sua participação com uma poesia sobre a necessidade de fazer a palavra sair do papel e ocupar as ruas, as bocas e as urnas.
“Porque é preciso escrever, mas é urgente falar e é inevitável gritar. O poema não pode engasgar, é preciso desentalar a poesia”, recitou.
Organização coletiva
“Eu não acredito em nada que não venha pela organização, A gente só vai disputar esse simbólico, esse imaginário, esse engajamento com o nosso próprio engajamento pela organização”. Com essa afirmação, Felipe Pena chamou a atenção para o fato de que a união e convergência de lutas é um poderoso instrumento contra o fascimo.
O papel da formação nesse processo foi ressaltado ao final do debate. A secretária nacional de Formação, Rosane Bertotti, destacou a esperança não como uma 'espera passiva', mas como expressão da organização de um povo.
A dirigente enfatizou que a cultura e a formação são pilares fundamentais para a classe trabalhadora, pois a "cultura faz construir identidade, traz ao seu povo, traz sua história, traz sua memória".
Por fim, Rosane reforçou que o objetivo do Ciclo de Debates Formativos é fortalecer a "esperança no sentido da capacidade e luta de organização de um povo ou da capacidade e luta de organização da Central Única dos Trabalhadores".
O ciclo de debates terá continuidade no dia 23 de julho, com foco nos desafios do movimento sindical frente ao avanço de ideologias extremistas.
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