A vice-presidenta da CUT , Juvandia Moreira, também reforça que a CUT, as demais centrais sindicais e as confederações de trabalhadores precisam intensificar a pressão pela redução dos juros
A preocupação com os rumos da economia está no centro das críticas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) à política de juros do Banco Central (BC). Nesta quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de reduções iniciado em março.
Para o presidente da CUT, Sergio Nobre, a decisão mantém o crédito caro, dificulta investimentos, freia a produção e compromete a geração de empregos. Na sua avaliação, enquanto o mercado financeiro se beneficia dos juros elevados, trabalhadores, empresas e famílias enfrentam os efeitos de uma economia que poderia crescer mais e distribuir melhor seus resultados.
Diante desse cenário, Sergio Nobre, afirma que o movimento sindical precisa ampliar sua participação no debate econômico e disputar os rumos da política monetária brasileira. Para ele, é necessário enfrentar o predomínio das ideias defendidas pelo mercado financeiro e construir alternativas que coloquem o desenvolvimento e os interesses da população no centro das decisões.
“Porque a mídia e o sistema financeiro cercam o debate”, disse
O presidente da CUT defende também que trabalhadores e representantes do setor produtivo participem dos espaços institucionais responsáveis pelas decisões econômicas, como o Conselho Monetário Nacional (CMN).
“O setor produtivo tem que estar lá, o movimento sindical tem que participar, porque mexe na vida de todo mundo”, destaca.
A vice-presidenta da CUT e presidenta da Contraf, Juvandia Moreira, reforça que a CUT, as demais centrais sindicais e as confederações de trabalhadores precisam intensificar a pressão pela redução dos juros e disputar o debate com o mercado financeiro.
“A Contraf-CUT, a CUT e todas as confederações de trabalhadores dos diferentes setores da economia têm um papel fundamental nessa luta: pressionar pela redução dos juros, assim como o mercado financeiro pressiona pela sua manutenção em níveis elevados. Precisamos também construir alternativas, reunir economistas com visão progressista e formular propostas que defendam os interesses dos trabalhadores e o desenvolvimento do país”, afirmou.
Sergio Nobre, que participou do seminário “A Classe Trabalhadora de Hoje – Desafios da Organização Coletiva”, realizado de 4 a 6 de novembro, no auditório do DIEESE, em São Paulo, considerou previsível a decisão do Banco Central. Para ele, porém, o país precisa romper com um debate limitado pelos interesses do sistema financeiro e discutir o papel dos juros no desenvolvimento econômico.
“Isso virou um tabu no Brasil. Parece que não se pode questionar a meta de inflação de 3% ao ano, que é muito baixa e difícil de alcançar. Precisamos discutir se essa meta é adequada e quais são os impactos de persegui-la com juros tão elevados”, afirmou.
Ganhar com a especulação é mais fácil do que investir na produção
Sergio Nobre chama a atenção para uma contradição da economia brasileira: enquanto empresas precisam produzir, contratar trabalhadores e assumir riscos para obter lucro, aplicações financeiras podem oferecer rendimentos elevados sem gerar empregos ou movimentar a produção.
“Você pega uma grande empresa, quando ela termina o ano e faz um resultado de 2%, 3%, ela solta fogos. Agora você coloca um investimento em título e tem 14% sem fazer nada o ano. Que tipo de comércio ou indústria vai dar um resultado desse?”, questiona.
Na avaliação do presidente da CUT, juros tão elevados acabam tornando a especulação financeira mais atraente do que o investimento produtivo. Em vez de direcionar recursos para ampliar negócios, desenvolver atividades econômicas e contratar trabalhadores, o sistema oferece incentivos para que o dinheiro permaneça aplicado no mercado financeiro.
O resultado, afirma, é uma economia que perde oportunidades de crescimento, geração de renda e criação de empregos. Para Sérgio Nobre, enfrentar essa lógica será um dos principais desafios do movimento sindical.
“Esse é o principal desafio do movimento sindical no ano que vem”, afirmou.
Mercado financeiro quer definir os rumos da economia
Juvandia Moreira, também presente no seminário, criticou a pressão do mercado financeiro sobre as decisões econômicas do país. Para ela, a disputa em torno dos juros revela um conflito mais amplo sobre o papel do Estado e a destinação dos recursos públicos.
“O mercado financeiro nunca apoiou um governo progressista que coloca o orçamento, coloca o Estado a serviço do povo. Eles sempre querem um Estado mínimo, querem reservar o orçamento para eles, desonerações, juros altos, porque eles ganham especulando”, afirmou.
Juvandia ressaltou que os juros elevados não prejudicam apenas quem precisa de empréstimos. Empresas que dependem de crédito para investir, ampliar a produção ou contratar trabalhadores também sentem os efeitos, com custos maiores e menos condições de crescer.
“Juros altos prejudicam a economia, prejudicam o setor produtivo, impedem o crescimento, prejudicam as empresas. Eles são completamente prejudiciais e acabam gerando recessão”, afirmou.
Para a vice-presidenta, manter a Selic em patamar elevado significa colocar os interesses do mercado financeiro acima das necessidades da maioria da população.
“É um absurdo, é uma aposta contra o Brasil manter esses juros altos”, destacou.
Juros altos também pesam sobre o orçamento público
Os efeitos da política de juros vão além dos bancos, das empresas e das famílias que recorrem ao crédito. Eles também aparecem nas contas do governo e podem comprometer a capacidade de financiar políticas públicas.
Segundo Juvandia, 51,6% da dívida pública federal está vinculada à Selic. Isso significa que uma parcela expressiva da dívida tem seu custo influenciado pela taxa básica de juros. Quando ela permanece elevada, aumenta a pressão sobre os gastos do Estado com o pagamento da dívida, reduzindo o espaço para investimentos e serviços públicos.
“Quanto mais alta a Selic, maior também será a dívida do Estado, com menos recursos sobrando para o que importa, como saúde, educação e segurança”, destacou a vice-presidenta.
Juvandia também rejeita a ideia de que o orçamento público deva ser tratado como o de uma família, que precisa apenas equilibrar receitas e despesas. O Estado, lembra, tem responsabilidades com a população e precisa investir para combater a pobreza, promover o desenvolvimento e garantir direitos.
“Um Estado que não pensa no povo, que não tira o povo da miséria, que não promove crescimento econômico, que não promove geração de emprego e renda, não é um Estado que está funcionando para todo mundo”, disse.
A dirigente alerta ainda para os riscos de políticas de ajuste que comprometam aposentadorias e programas sociais.
“Eles querem que enxugue as políticas sociais, querem que desonere a aposentadoria do salário mínimo. (...) Nós não podemos abrir mão disso”, afirma, ao defender investimentos em educação, saúde, Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família e outras políticas de proteção social.
Crédito caro afeta o cotidiano dos trabalhadores
A manutenção dos juros elevados também pesa diretamente no bolso da população. Quem precisa financiar uma casa, comprar um bem, reorganizar as dívidas ou recorrer ao cartão de crédito encontra custos maiores. Modalidades como o rotativo do cartão e o cheque especial estão entre as mais caras, agravando a situação de quem já enfrenta dificuldades financeiras.
Para as empresas, o cenário é igualmente desfavorável. Empréstimos mais caros dificultam investimentos, expansão da produção e contratação de trabalhadores. Na prática, isso significa menos oportunidades de emprego e obstáculos ao aumento da renda.
A CUT defende que a redução dos juros é fundamental para estimular a economia, fortalecer a produção, ampliar postos de trabalho e garantir condições para o financiamento de políticas públicas.
Sergio Nobre defende que Lula priorize demandas populares em pronunciamento
O que os trabalhadores esperam do governo Lula? Para o presidente da CUT, Sergio Nobre, a resposta passa por questões concretas da vida cotidiana: emprego de qualidade, comida mais barata, melhores condições de vida, acesso ao lazer e serviços públicos que funcionem. É essa voz que, segundo ele, precisa ser ouvida no pronunciamento do presidente à nação, previsto para domingo (8), em cadeia nacional de rádio e televisão.
“O povo quer emprego de qualidade, o povo quer comida barata, o povo quer ter o direito de viajar, o povo quer ser feliz, o povo quer ser bem atendido no SUS”, afirmou Sergio Nobre, ao defender que as prioridades do governo estejam conectadas às necessidades da população, e não às pressões do mercado financeiro.
Para Sergio Nobre, o mais importante é que o presidente mantenha o compromisso com as demandas populares e não ceda às pressões do mercado financeiro, que busca influenciar os rumos da política econômica. “Agora é ouvir a voz das ruas”, defende o dirigente.
Na avaliação do presidente da CUT, as expectativas da população são claras e devem orientar as decisões do governo e a composição do novo ministério. Mais do que responder às exigências do mercado, Lula precisa garantir que o crescimento econômico se traduza em melhores condições de vida para quem trabalha.
O pronunciamento de Lula à Nação deve reafirmar o compromisso com as promessas de campanha e sinalizar responsabilidade fiscal ao mercado financeiro. Entre os temas previstos estão melhorias na segurança pública, a Tarifa Zero e a redução das dívidas dos MEIs.