Plenária popular reuniu lideranças, trabalhadores, empresários e movimentos sociais para discutir saúde, trabalho, meio ambiente e caminhos para o desenvolvimento sustentável da região.
Na quinta-feira, 9 de abril de 2026, o auditório da Câmara Municipal de Vereadores de Trindade (PE) sediou a Plenária Popular “O impacto da produção de gesso na região do Araripe-PE”, reunindo representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), da CUT, do SINDIMINA, movimentos sociais, povos indígenas, trabalhadores e representantes do setor produtivo.
A atividade marcou o encerramento de uma missão de conhecimento ao polo gesseiro, realizada para ouvir comunidades, trabalhadores, empresas e lideranças locais, além de subsidiar um relatório técnico de alcance nacional sobre a realidade da cadeia produtiva do gesso no Araripe.
O encontro reuniu diferentes visões sobre uma região que concentra cerca de 90% da mineração de gipsita e da produção de gesso brasileira. Apesar de ser uma das principais reservas minerais do mundo, o Araripe ainda enfrenta desafios sociais, ambientais e estruturais, além da necessidade de ampliar investimentos capazes de gerar desenvolvimento com inclusão social.
A secretária nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara, destacou a importância da escuta direta da população atingida. Segundo ela, a produção de gesso possui relevância estratégica para a economia regional e nacional, mas também exige atenção especial quanto à preservação ambiental, especialmente da Caatinga, e à busca por uma transição energética justa.
Durante a plenária, também houve apresentação do Projeto de Lei nº 572/2022, feita pelo advogado Antônio Megale, sócio do escritório LBS Advogadas e Advogados. A proposta trata de diretrizes relacionadas à atividade empresarial e direitos humanos, prevenção de danos e mecanismos de reparação, contribuindo para o debate nacional sobre desenvolvimento econômico com responsabilidade social.
Representante da CUT no Conselho, o diretor executivo da central, Ismael José Cesar, ressaltou que os desafios da região ultrapassam os limites locais, considerando a importância econômica do polo gesseiro para o país. Também defendeu investimentos públicos em qualificação profissional, formação técnica para juventude e fortalecimento das oportunidades de trabalho na região.
Trabalho e saúde
As condições de trabalho no polo gesseiro foram abordadas pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração de Minérios (SINDIMINA), Admilson Lima Ramos. Em sua fala, ele reforçou que saúde e segurança devem ser prioridades permanentes nas empresas, com uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), fiscalização preventiva, capacitação contínua e conscientização dos trabalhadores.
Também foi destacado que o setor registrou avanços nos últimos anos, inclusive com melhorias em algumas unidades produtivas e ampliação de oportunidades de emprego, inclusive para mulheres. Ao mesmo tempo, permanece a necessidade de modernização tecnológica e fortalecimento das boas práticas trabalhistas.
O dirigente sindical defendeu mudanças estruturais no modelo produtivo, especialmente na substituição gradual da lenha por fontes energéticas mais modernas e sustentáveis. Segundo ele, isso pode contribuir para reduzir a exposição ao calor e à poeira, melhorar as condições de trabalho e beneficiar toda a comunidade.
Participantes da plenária defenderam ainda a ampliação de parcerias com instituições como Sistema S, escolas técnicas, universidades, sindicatos e órgãos públicos, com foco em formação profissional, segurança do trabalho e inovação industrial.
Meio ambiente e desenvolvimento sustentável
O impacto ambiental também esteve entre os principais temas debatidos, especialmente na relação com os territórios indígenas e com a preservação da Caatinga. Lideranças relataram preocupação com o uso da lenha como matriz energética predominante e os efeitos do desmatamento na região.
Nesse contexto, foi defendida a criação de linhas de crédito e incentivos públicos para modernização do setor, com participação de instituições como BNDES, Banco do Nordeste e demais agentes de fomento. A proposta é apoiar financeiramente as empresas na transição energética, protegendo o meio ambiente, fortalecendo a economia local e gerando melhores condições para trabalhadores e comunidades.
Diálogo com o setor produtivo
Representante de empresários mineradores também participou da plenária e relatou as dificuldades enfrentadas pelas empresas diante do cenário econômico atual, das exigências regulatórias e das limitações financeiras para manutenção de equipes técnicas especializadas.
O empresário destacou a importância de que o polo gesseiro seja reconhecido não apenas pelos seus problemas, mas também por sua relevância econômica e social para a região. Defendeu ainda que soluções sejam construídas por meio do diálogo entre empresas, trabalhadores, sindicatos e poder público.
Encaminhamentos
O relatório elaborado a partir da missão será analisado pelo plenário do CNDH e encaminhado aos governos estadual e federal. Entre as propostas debatidas está a criação de uma mesa permanente de diálogo no Araripe, reunindo trabalhadores, comunidades, empresas e órgãos públicos para construir soluções conjuntas voltadas ao desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do gesso.
Para os participantes, o processo iniciado na região representa uma oportunidade de fortalecer a economia local, proteger o meio ambiente, ampliar direitos e melhorar a qualidade de vida da população.
A missão contou com apoio do projeto Labora para sua realização.
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