Escrito por: Luiz R Cabral

Cesta básica cai em 26 das 27 capitais do país e traz alívio ao bolso do trabalhador

Estudo do DIEESE mostra que batata, tomate, café em pó e açúcar foram os produtos que mais tiveram queda nos preços. As maiores reduções foram em Natal, Maceió e BH

Roberto Parizotti (Sapão)

A cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais brasileiras em julho, reduzindo a pressão sobre o orçamento dos trabalhadores.

Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O levantamento acompanha os preços de alimentos essenciais à mesa dos brasileiros, como arroz, feijão, pão francês, carne, leite, tomate, batata, café e açúcar.

“É uma pesquisa muito importante porque acompanha itens essenciais que estão presentes na mesa de todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros”, afirma Patrícia Costa, coordenadora do estudo.

A queda de julho trouxe uma melhora imediata para as famílias. O trabalhador precisou dedicar, em média, 100 horas e 24 minutos de trabalho para comprar a cesta. Em junho, eram 105 horas e 51 minutos.

Depois do desconto da contribuição previdenciária, a alimentação básica consumiu 49,34% do salário mínimo líquido. No mês anterior, esse percentual havia sido de 52,02%.

 “É uma diminuição importante. Para o orçamento doméstico de todas as famílias, é sempre muito importante quando se consegue gastar um pouco menos com a alimentação”, disse Patrícia.

  O mapa da queda dos preços

As maiores reduções em julho ocorreram em Natal (-7,95%), Maceió (-7,87%) e Belo Horizonte (-7,44%). São Luís foi a única capital onde a cesta ficou mais cara, com alta de 0,30%.

Mesmo com a redução, São Paulo continuou apresentando a cesta mais cara, com R$ 915,01. Na sequência ficaram Cuiabá, com R$ 881,27, e Florianópolis, com R$ 860,73.

Os menores valores foram encontrados em Aracaju (R$ 594,07), Maceió (R$ 618,60) e Natal (R$ 631,51).

A diferença entre as capitais mostra que o custo da alimentação varia de acordo com as condições de oferta, produção e comercialização em cada região. Para famílias que comprometem boa parte da renda com comida, alguns reais a mais no supermercado fazem diferença no orçamento do mês.

Salário mínimo necessário chega a R$ 7.687

A diferença entre o custo dos alimentos e a renda disponível também aparece no cálculo do salário mínimo necessário feito pelo DIEESE.

Em julho, o valor estimado para uma família de quatro pessoas foi de R$ 7.687,01. O montante corresponde a 4,74 vezes o salário mínimo de R$ 1.621,00.

O cálculo considera, além da alimentação, despesas previstas na Constituição, como moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e Previdência Social.

O indicador ajuda a dimensionar o desafio enfrentado por quem vive do trabalho e também fornece uma referência para sindicatos nas negociações salariais. A evolução da cesta permite acompanhar quanto a renda precisa avançar para preservar o poder de compra diante do custo de vida.

Feijão, tomate e batata pressionam preços no ano

A queda registrada em julho não apaga as altas acumuladas por alguns alimentos.

O feijão carioca foi um dos principais exemplos. Entre janeiro e julho, o produto subiu 61,82% em Belém, 44,03% em Aracaju e 40,72% em Belo Horizonte.

O tomate, embora tenha ficado mais barato em julho, acumulou alta de 44,29% em Aracaju, 32,37% em Belém e 26,69% em Belo Horizonte.

A batata também continua pesando no orçamento. Em Belo Horizonte, acumulou alta de 29,96% entre dezembro de 2025 e julho de 2026. Na comparação de 12 meses, a elevação chegou a 71,92%.

O leite integral teve alta acumulada de 14,90% em Belo Horizonte e 13,53% em Aracaju.

Alguns produtos, por outro lado, ficaram mais baratos no acumulado do ano. O óleo de soja caiu 13,98% em Belém. O café em pó recuou 14,10% em Belo Horizonte, enquanto o açúcar cristal teve redução de 9,27% na capital mineira. A farinha de mandioca caiu 21,99% em Belém.

Safra e oferta ajudam a reduzir preços

O comportamento dos alimentos em julho ajuda a explicar a queda da cesta. A maior oferta de batata e tomate, favorecida pela safra de inverno e pela melhora da produtividade, reduziu os preços em várias capitais.

O café em pó também ficou mais barato na maior parte das localidades pesquisadas. A expectativa de uma produção elevada contribuiu para reduzir a pressão sobre os preços.

O açúcar seguiu movimento semelhante, favorecido pela oferta de cana-de-açúcar.

“Em julho, especificamente, observou-se queda da batata e do tomate por serem produtos oferecidos em grande quantidade no mercado. Por isso, o preço diminuiu”, explica Patrícia.

O leite integral percorreu o caminho contrário. O produto subiu em 21 capitais, influenciado pela entressafra e pelas condições climáticas que afetam a produção.

“Dentre os produtos que mais subiram, destacamos o leite integral. O excesso de calor dificulta a pastagem e, há algum tempo, observa-se a elevação dos preços dos derivados do leite”, afirma a coordenadora do projeto do DIEESE.

Clima coloca produção de alimentos sob pressão

A relação entre clima e preço dos alimentos deve ganhar cada vez mais atenção. Calor intenso, chuvas fortes e outros eventos extremos podem afetar a produção, reduzir a oferta e pressionar os preços pagos pelos consumidores.

Para Patrícia Costa, esse é um dos principais desafios para os próximos anos.

“O clima vem colocando um desafio de como enfrentar todas essas mudanças climáticas, esse calor intenso e as chuvas intensas, que acabam impactando a produção de alimentos”, afirma.

O problema não termina na propriedade rural. Quando a produção diminui, os efeitos podem chegar ao supermercado e pesar diretamente no orçamento das famílias.

Por isso, a estabilidade dos preços depende também de políticas capazes de reduzir a vulnerabilidade da produção e evitar que os custos decorrentes de eventos climáticos sejam repassados integralmente ao consumidor.

“O grande desafio que se coloca para os próximos anos é fazer com que todo esse impacto não chegue diretamente ao consumidor e conseguir efetivamente vivenciar uma certa estabilidade de preços”, diz Patrícia.

Poder de compra continua no centro do debate

A queda da cesta básica em julho é uma notícia positiva para os trabalhadores. Mas o resultado precisa ser visto dentro de um cenário mais amplo: todas as capitais acumularam alta nos primeiros sete meses do ano.

Para quem recebe salário mínimo, a diferença entre uma redução pontual e uma tendência sustentável de preços é decisiva. O orçamento familiar não depende apenas do preço de um produto em determinado mês, mas da capacidade de a renda acompanhar o custo de vida ao longo do tempo.

É nesse ponto que a pesquisa do DIEESE ganha importância para o movimento sindical. Ao medir mensalmente o custo dos alimentos e o tempo de trabalho necessário para comprá-los, o levantamento oferece dados para discutir salários, poder de compra e condições de vida.

A queda de julho trouxe algum espaço para o orçamento das famílias. O desafio, agora, é transformar esse alívio pontual em uma trajetória de maior estabilidade, com renda capaz de acompanhar o custo de vida e políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à proteção do consumidor.

Veja a pesquisa completa. Clique aqui.