Pastor ligado ao candidato já defendeu retirar o reconhecimento nacional da santa católica. Igreja Católica monitora ataques desde 2019, segundo reportagem do UOL
Caiu como uma bomba na campanha do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a informação de que setores evangélicos ligados ao senador defendem a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O próprio candidato classificou a informação como falsa, mas há registros públicos que mostram que a discussão existe e não começou agora.
Nossa Senhora Aparecida foi declarada oficialmente Padroeira do Brasil pelo papa Pio XI, em 1930. Em 1980, durante a visita do papa João Paulo II ao país, o dia 12 de outubro foi instituído por lei federal como feriado nacional.
A proposta de retirar o reconhecimento nacional da santa existe desde 2007 e permanece sem aprovação no Congresso. Ao longo dos anos, também foram registradas manifestações de lideranças evangélicas defendendo a retirada do título.
O projeto, portanto, não produziu nenhuma mudança na condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. A santa continua com o título oficial e o feriado de 12 de outubro permanece no calendário nacional. O que existe é uma proposta legislativa antiga, que não avançou, e manifestações públicas favoráveis à retirada do reconhecimento.
Aliado de Flávio Bolsonaro, JB Carvalho, pastor da Comunidade das Nações, igreja frequentada pelo candidato e por sua esposa, onde os dois foram batizados, defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Nossa Senhora Aparecida e registrou essa posição em livro.
O vínculo com a igreja frequentada pelo candidato colocou a declaração do pastor novamente no centro do debate depois que o assunto voltou a circular nas redes sociais e foi abordado por veículos de imprensa.
Também voltou a circular nas redes sociais uma manifestação de um dos assessores de Flávio Bolsonaro criticando a devoção dos católicos a Maria e classificando a prática como idolatria.
A declaração passou a ser relacionada ao debate atual sobre Nossa Senhora Aparecida e ao histórico de manifestações de integrantes do entorno político e religioso do senador.
A discussão ganhou outro elemento após a jornalista Daniela Lima, do UOL, revelar que a Igreja Católica no Brasil vinha acompanhando episódios de intolerância religiosa e ataques a símbolos religiosos.
Segundo a apuração, Daniela Lima teve acesso a documentos produzidos e debatidos internamente pela Igreja. O material reúne registros e estudos sobre manifestações de intolerância contra diferentes grupos religiosos, incluindo católicos, judeus e religiões de matriz africana.
De acordo com a jornalista, a documentação começa a registrar esse acompanhamento de forma mais sistemática a partir de 2019. Os documentos também mostram que o tema foi discutido em conferências, seminários e reuniões da cúpula da Igreja Católica no Brasil.
Entre os assuntos acompanhados estavam os ataques contra Nossa Senhora Aparecida e a atuação de setores neopentecostais no debate político e religioso.
Em um dos trechos destacados por Daniela Lima, a documentação mostra que, ao longo dos anos, a Igreja vinha discutindo internamente o uso de discursos religiosos e a presença de pessoas identificadas com essas pautas dentro do aparelho do Estado.
A jornalista também relacionou esse histórico ao vídeo publicado por Flávio Bolsonaro em 23 de agosto, no qual o candidato afirmou que, caso eleito, decretaria "Jesus Cristo o Senhor do Brasil".
A relação entre setores neopentecostais e a devoção católica a Nossa Senhora também tem episódios registrados há décadas.
Em 1995, o pastor Sérgio von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão. O episódio ficou conhecido como o "chute na santa" e provocou forte reação da Igreja Católica.
O caso ganhou repercussão nacional e passou a integrar o histórico de conflitos envolvendo manifestações de líderes evangélicos contra símbolos e práticas da fé católica.
A repercussão ocorre poucos dias depois de a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) rebater declarações de Flávio Bolsonaro contra integrantes da Igreja Católica.
Bispos da igreja também se manifestaram publicamente após os ataques do senador.
A manifestação da CNBB ocorreu no mesmo período em que declarações e registros antigos sobre Nossa Senhora Aparecida voltaram a circular nas redes sociais, reacendendo a discussão sobre as relações entre religião e política na campanha presidencial. Leia nota.
O presidente Lula comentou a controvérsia e afirmou que “esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”.
Ele também lembrou o episódio de 1995, quando o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio von Helder, chutou uma imagem da santa durante um programa de televisão.