Escrito por: Walber Pinto

Antes da tragédia, CUT-MG denunciou Zema por corte de 96% nas verbas para as chuvas

Presidente da CUT-MG afirma que redução de investimentos do governo Zema agravou impactos dos temporais que deixaram mais de 60 mortos

Tania Rego/Agência Brasil

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata mineira, já deixaram mais de 60 mortos, além de centenas de desabrigados e bairros devastados por deslizamentos e alagamentos. Em meio ao cenário de destruição, dados oficiais revelam queda de 96% nos investimentos do governo de Romeu Zema (Novo), entre 2023 e 2025, destinados ao combate e à prevenção de danos causados pelas mudanças climáticas.

Os dados foram publicados pelo jornal O Globo, com base em informações do Portal da Transparência de Minas Gerais. Em 2023, a gestão estadual destinou R$ 134.829.787,08 ao programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas”.

Em 2024, o valor empenhado foi de R$ 41.113.405,70. Já em 2025, o montante caiu para R$ 5.875.482,98. Em 2026, até 25 de fevereiro, o total registrado é de R$ 36.146,51.

A comparação entre 2023 e 2025 aponta redução de 96% nos recursos destinados à área. Em 2024, conforme o detalhamento do levantamento, R$ 5,8 milhões foram efetivamente gastos dentro da rubrica específica analisada, sendo R$ 5,6 milhões (97%) aplicados exclusivamente em ações para atenuar danos em estradas.

CUT-MG denunciou abandono da área pública

Para o presidente da CUT-MG, Jairo Nogueira Filho, a tragédia é reflexo direto da política de redução de investimentos adotada pelo governo estadual. Segundo ele, a central denuncia, desde o primeiro mandato de Zema, a falta de recursos em áreas essenciais.

“A CUT Minas Gerais tem denunciado a falta de investimento do governo Romeu Zema (Partido Novo) desde o seu primeiro mandato. Com a lógica do Estado mínimo adotada aqui, houve redução de investimentos na educação, na saúde e também na infraestrutura, o que poderia ter evitado as mortes ocorridas em Juiz de Fora”, afirmou.

De acordo com o dirigente, diversas áreas de risco surgiram sem receber o investimento necessário do governo estadual. “O governo destinou apenas 5% da verba necessária para infraestrutura. Isso compromete a melhoria das condições de vida no estado. A área pública tem sido abandonada, enquanto o setor privado é privilegiado. Basta observar a relação do governo com empresas como a Vale e a Localiza, priorizando interesses privados, especialmente de grupos próximos ao governo”, declarou.

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Falta de investimentos e transparência

Para o presidente da CUT-MG, o problema vai além da execução orçamentária e envolve também a gestão fiscal do estado.

A denúncia recorrente que fazemos é sobre a falta de investimento e de transparência do governo estadual. Ao final do mandato, o Estado é entregue com uma dívida altíssima, apesar do discurso oficial de gestão transparente e eficiente. Na prática, Minas Gerais está sendo deixada em situação de abandono- Jairo Nogueira

Sobre a reação da população à presença do governador nas áreas atingidas, ele acrescentou: “O que aconteceu em Juiz de Fora e na região é reflexo dessa política. A revolta da população diante da presença do governador demonstra a insatisfação com uma postura que transforma tragédias e mortes em propaganda política.”

Jairo também relacionou a tragédia ao cenário mais amplo dos serviços públicos no estado. “Minas Gerais enfrenta sérios problemas em diversos setores: hospitais com dificuldades, escolas em situação precária e ausência de investimentos públicos consistentes. Enquanto isso, o governo mantém o foco na propaganda.”

Segundo ele, “a principal marca da gestão Zema tem sido a defesa de um modelo ultrapassado de Estado mínimo, já abandonado por muitos estados e países, que retira investimentos essenciais da população”. Ele acrescentou que o governo “também defende a privatização da educação pública e da saúde por meio de Organizações Sociais (OSs), insistindo nessa proposta mesmo no final do mandato”.

Enquanto as cidades atingidas tentam se reerguer e as famílias das vítimas enfrentam o luto, a tragédia na Zona da Mata reacende o debate sobre prioridades orçamentárias, planejamento urbano e o papel do Estado na prevenção de desastres e na proteção da população.

Crítica à privatização do saneamento

O presidente da CUT-MG também criticou o processo de privatização do saneamento no estado. “Estamos vendo isso novamente no processo acelerado de privatização do saneamento em Minas, com a Copasa sendo encaminhada para a iniciativa privada, como já ocorreu em São Paulo e em outros estados, onde os resultados não foram positivos”, afirmou.

Governo Zema anunciou recursos só após a tragédia

Dada a repercussão negativa, pressão popular e fortes críticas do conjunto da sociedade mineira ante o sofrimento das vítimas, o governo anunciou aportes para as cidades atingidas. O vice-governador Mateus Simões (PSD) informou que serão destinados R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá. Zema também anunciou o envio de equipes do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) para mapear áreas de risco e orientar intervenções emergenciais. 

Para Jairo Nogueira Filho, presidente da CUT-Minas Gerais, é importante que a popualação gaurde na memória a atuação destastrosa do governo. "Mandar dinheiro só depois da tragédia não vai apagar o trauma que ficará para a população. É importante lembrar que Zema deixou isso acontecer ao não investir recursos para prevenção".