Jornalista, escritora e militante enfrentou a ditadura, denunciou a tortura e dedicou sua trajetória à defesa dos direitos humanos, da memória e da participação das mulheres
O Brasil perdeu, nesta terça-feira (15), uma de suas principais referências na luta pela democracia e pelos direitos das mulheres. A jornalista, escritora e militante Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, morreu aos 81 anos, em São Paulo.
Sua trajetória atravessa momentos decisivos da história brasileira. Amelinha enfrentou a ditadura militar, sobreviveu à prisão e à tortura, participou da reconstrução democrática do país e ajudou a abrir caminhos para que milhares de mulheres conhecessem e reivindicassem seus direitos.
Mais do que uma sobrevivente da violência de Estado, ela transformou sua experiência em ação política. Fez da memória uma ferramenta contra o autoritarismo e sustentou, até os últimos anos de vida, que a democracia não é uma conquista definitiva. Precisa ser defendida todos os dias.
“Mulheres como Amelinha marcam a história. Assim como tantas outras, como Dilma Rousseff, Zuzu Angel, Clara Charf e Eunice Paiva, ela é referência porque sua luta teve e tem um impacto profundo na vida de brasileiros e, em especial, de brasileiras”, afirma a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT Amanda Corcino.
“Sua visão de democracia era baseada em equidade e protagonismo das mulheres. Amelinha não foi uma mulher à frente de seu tempo. Mais que isso, ela ajudou a construir novos tempos, mais justos”, completa Amanda.
Da resistência à ditadura à luta por justiça
Nascida em Contagem, Minas Gerais, em 1944, Amelinha iniciou sua militância política ainda jovem e ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Em 28 de dezembro de 1972, durante um dos períodos mais violentos da ditadura militar, foi presa em São Paulo com o marido, César Augusto Teles, a irmã Criméia, que estava grávida, e o militante Carlos Nicolau Danielli. Amelinha testemunhou o assassinato de Danielli nas dependências do DOI-Codi.
Ela foi submetida a torturas físicas, psicológicas e sexuais. Seus filhos, Edson e Janaína, então com 4 e 5 anos, também foram levados ao local e obrigados a vê-la ferida depois das sessões de tortura.
Décadas mais tarde, a família Teles protagonizou uma ação jurídica histórica contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Em 2008, a Justiça reconheceu Ustra como torturador. Foi a primeira vez que um agente do Estado brasileiro recebeu esse reconhecimento por sua atuação durante a ditadura. A decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça em 2014.
A luta de Amelinha, no entanto, nunca se limitou à responsabilização de seus próprios torturadores. Ela atuou na Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e foi assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. Seu trabalho ajudou a preservar histórias que setores da sociedade tentaram apagar.
Para Amelinha, conhecer o passado era uma condição para compreender e transformar o presente. Por isso, defendia o direito à memória, à verdade e à justiça, além da responsabilização dos responsáveis pelos crimes cometidos pelo Estado.
Democracia construída pelas mulheres
Amelinha também foi uma das principais vozes do feminismo popular brasileiro. Em 1984, ajudou a fundar a União de Mulheres de São Paulo. Posteriormente, participou do movimento conhecido como Lobby do Batom, que mobilizou mulheres de diferentes organizações para garantir direitos e igualdade de gênero na Constituição Federal de 1988.
Em 1994, idealizou o projeto Promotoras Legais Populares, voltado à formação de mulheres, principalmente das periferias, em direitos, cidadania e enfrentamento à violência.
O projeto partia de uma compreensão que acompanhou toda a sua atuação: o conhecimento sobre as leis não poderia permanecer restrito aos tribunais, às universidades ou aos especialistas. Precisava chegar às mulheres que enfrentavam diariamente a violência doméstica, a desigualdade e a negligência das instituições.
Para Amelinha, não poderia existir uma democracia plena enquanto as mulheres continuassem expostas à violência, afastadas dos espaços de decisão e privadas de seus direitos. A participação e o protagonismo feminino, portanto, não eram questões paralelas à democracia. Faziam parte de sua própria construção.
Essa visão também aparece em seus livros. Entre as obras publicadas estão Contos da Cela Três, produzido a partir das memórias do cárcere, Breve História do Feminismo no Brasil e O que são os Direitos Humanos das Mulheres?
Os fantasmas do presente
Nos últimos anos, Amelinha insistiu em um alerta dirigido às novas gerações: os fantasmas do passado permanecem vivos quando um país não enfrenta plenamente os crimes cometidos em sua história.
Para ela, a redemocratização brasileira permaneceu incompleta porque o Estado não responsabilizou criminalmente os agentes envolvidos em torturas, assassinatos e desaparecimentos políticos. A impunidade permitiu que práticas autoritárias continuassem presentes na sociedade e atingissem, principalmente, as populações mais pobres e vulneráveis.
O esquecimento, em sua avaliação, também favorecia o retorno de discursos golpistas, da defesa da ditadura e da exaltação de torturadores. Por isso, contar a história era, para Amelinha, uma forma de disputar o presente e impedir que a violência de Estado fosse normalizada.
Ela alertava ainda que uma sociedade marcada pela violência política, quando não enfrenta seus traumas por meio da verdade e da justiça, pode perder a capacidade de imaginar mudanças. O medo de pensar, sonhar e projetar outro futuro abre espaço para a manipulação, o ódio e o crescimento de lideranças autoritárias.
Amelinha também denunciava o uso político da mentira e da destruição de reputações. Alvo de campanhas de desinformação nas redes sociais, relacionava essas práticas às antigas estratégias de perseguição, vigilância e difamação utilizadas pelos órgãos repressivos durante a ditadura.
"Estamos em um momento em que a defesa da democracia exige enfrentar o autoritarismo, combater a desinformação, preservar a memória e lutar contra qualquer tentativa de tratar a tortura e a violência política como episódios menores da história. Este é um dos legados de Amelinha", reforça Amanda Corcino.