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'Agenda de Bolsonaro é a de Temer radicalizada', diz Haddad

À Folha de S.Paulo, ex-presidenciável diz que plano de governo bolsonarista não passa no teste da desigualdade, pois possui baixa capacidade de sustentação

Publicado: 26 Novembro, 2018 - 14h53 | Última modificação: 26 Novembro, 2018 - 14h57

Escrito por: Redação RBA

RICARDO STUCKERT
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O ex-candidato à Presidência pelo PT, Fernando Haddad, explica em sua primeira entrevista concedida após o final do segundo turno, que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) carrega a agenda econômica de Michel Temer, mas de maneira mais radicalizada.

Ao jornal Folha de S.Paulo, o ex-prefeito da capital paulista diz que a futura agenda econômica, administrada por Paulo Guedes, não passa no teste da desigualdade, pois possui baixa capacidade de sustentação. Entretanto, ao se basear também em pautas obscurantistas, contra as artes e a escola laica, esse plano de governo pode se manter de pé por mais tempo. "Acoplada à agenda cultural regressiva, pode ter uma vida mais longa", explica ele.

Haddad diz também que a elite econômica abriu mão de seu verniz, agora, com o objetivo de mostrar ao mundo sua verdadeira face: o neoliberalismo somado ao discurso truculento. Para ele, assim como Bolsonaro, o novo governador de São Paulo, João Doria, é a exemplificação dessa tendência. Ele conta, inclusive, que apostava no tucano como possível presidenciável a levar essa bandeira em 2018.

“Eu imaginava (há dois anos) que o (João) Doria, que é essencialmente o Bolsonaro, fosse ser essa figura (que se elegeria presidente). Achava que a elite econômica não abriria mão do verniz que sempre fez parte da história do Brasil. As classes dirigentes nunca quiseram parecer ao mundo o que de fato são.”

O petista acredita que a eleição do candidato de extrema-direita mostra que o país vive num sistema híbrido, em que o autoritarismo cresce dentro das instituições democráticas.

"Os golpes se davam de fora da democracia contra ela. Hoje, o viés antidemocrático pode se manifestar por dentro das instituições. Ele pode se manifestar na Polícia Militar, na Polícia Federal, no Judiciário, no Ministério Público. Quando um presidente eleito vem a público num vídeo dizer que os estudantes brasileiros têm que filmar os seus professores e denunciá-los, você está em uma democracia ou em uma ditadura?", indaga ele.

Segundo Haddad, um dos fatores que justificaria esse fortalecimento do discurso autoritário dentro do âmbito da democracia seria a crise econômica de 2008, provocada pelo neoliberalismo, e que resultou na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2018.

"Está havendo, portanto, um quiproquó: os EUA negam o neoliberalismo enquanto não nos resta outra alternativa a não ser adotá-lo. A crise mundial acarretou a desaceleração do crescimento latino-americano e a consequente crise fiscal. No continente todo houve a ascensão de governos de direita — no caso do Brasil, de extrema direita", acrescenta ele.

Construção de uma frente democrática

Apesar de Haddad afirmar que não pretende dirigir o PT nem sua fundação, ele quer militar para ajudar a formação da oposição. Segundo ele, todas as legendas democráticas devem abrir conversa e seria necessário trabalhar para a formação de duas frentes de atuação política: uma de defesa de direitos sociais, em torno de demandas como a proteção do Sistema Único de Saúde (SUS), investimento em educação e proteção dos mais pobres; e outra outra a favor dos direitos civis, envolvendo a defesa da escola laica e questões ambientais.

Apesar de o PT não ter a hegemonia da esquerda, o ex-prefeito acredita na força do partido, mesmo após a derrota presidencial, para ajudar na formação dessa oposição. "O PT é um player no sentido pleno da palavra. É um jogador de alta patente, que sabe fazer política. Sabe entrar em campo e defender o seu legado", afirma.

Haddad lamenta a falta da união de democratas no segundo turno das eleições, quando não houve manifestações explícitas de Ciro Gomes (PDT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Por outro lado, se diz sensibilizado com com as declarações favoráveis de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), e Marina Silva (Rede).

"Com toda a sinceridade: vivi um momento tão rico que foi o que menos importou. Não que eu não tenha lamentado o Ciro não ter ficado no Brasil ao meu lado", diz ele, ao relembrar do ato em Ondina, na capital baiana, com 120 mil pessoas. "É uma experiência que pouca gente vai ter na vida", diz.

Diante da pauta regressiva, ele acredita que as forças políticas de esquerda devem fazer esforços entre o segmento religioso, principalmente, os evangélicos. "Há um fenômeno evangélico sobre o qual temos que nos debruçar. Não podemos dar de barato que essas pessoas estão perdidas (...) Assim como no final da ditadura foi possível abrir um canal de diálogo com a Igreja Católica, a esquerda tem agora o desafio de abrir um canal com a igreja evangélica, respeitando suas crenças", explica.

Vitória de Lula

Uma das certezas de Haddad é que se Luiz Inácio Lula da Silva fosse o candidato do PT nas eleições de 2018, ele sairia vencedor. "Está claríssimo que, se não tivessem condenado o Lula num processo frágil, que nenhum jurista sério reconhece como robusto, ele teria ganhado a eleição. Ele teria feito mais de 50% (dos votos no segundo turno)."

Ele também revela que o momento pós-eleição está difícil para o ex-presidente, mas acredita em sua capacidade de recuperação. "Já superou um câncer, a perda da esposa, a privação de liberdade", finaliza.

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