Estudo do programa KnowTheChain, com apoio da ADERE-MG, ouviu trabalhadores em Minas Gerais e relata jornadas exaustivas, moradia precária e casos de servidão por dívida na cadeia do café
Um relatório internacional divulgado neste ano acendeu alerta sobre violações trabalhistas na cadeia global de alimentos e bebidas, com destaque para a produção de café no Brasil. O estudo integra o relatório de benchmark de 2026, elaborado e publicado pelo Centro de Empresas e Direitos Humanos (Business & Human Rights Resource Centre), por meio do programa KnowTheChain, responsável por coordenar a metodologia e a estrutura da pesquisa que analisa violações de direitos nas cadeias globais de produção.
O estudo, que contou, também, com a participação da Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (ADERE-MG), identificou indícios de trabalho forçado em fazendas mineiras durante a colheita de café, com relatos de jornadas exaustivas, moradia precária e casos de servidão por dívida. A ADERE-MG atuou como parceira operacional da pesquisa, facilitando o contato com trabalhadores rurais em Minas Gerais e contribuindo para incorporar seus depoimentos ao estudo.
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, coordenador da ADERE/MG e integrante da direção da CUT Minas, um dos principais resultados da pesquisa foi dar visibilidade à realidade vivida pelos trabalhadores no campo.
“Houve reuniões e conversas preparatórias, além da negociação de critérios de confidencialidade e de proteção à identidade dos trabalhadores. Também discutimos a melhor forma de incluir os trabalhadores na pesquisa, sempre garantindo a segurança deles. Essa pesquisa foi construída a partir de um acordo flexível entre a ADERE e a KnowTheChain, com responsabilidade e cuidado em todas as etapas”, afirma.
A exploração de trabalhadores rurais e a degradação ambiental estão diretamente ligadas ao modelo de produção agrícola predominante no país. A avaliação é da Secretária de Meio Ambiente da CUT, Rosalina Amorim.
“A CUT tem uma trajetória marcada pela denúncia permanente de relações de trabalho em condições análogas à escravidão no Brasil. Esse problema está diretamente ligado ao modelo hegemônico de agricultura, baseado na produção de commodities para o mercado e na destruição e apropriação dos bens comuns da natureza”, afirma.
Segundo a secretária, os casos de exploração registrados no campo frequentemente ocorrem em regiões também marcadas pela devastação ambiental.
“Os resgates de trabalhadores e as denúncias mostram que, muitas vezes, essas situações acontecem em regiões onde também há forte devastação ambiental. São práticas agrícolas que degradam o meio ambiente e afetam diretamente a saúde das pessoas que vivem e trabalham nesses locais”, diz.
Os pesquisadores entrevistaram 24 trabalhadores em nove fazendas de café em Minas Gerais. Em todas as entrevistas foram identificados indicadores de trabalho forçado, de acordo com critérios internacionais utilizados para caracterizar o trabalho escravo contemporâneo.
Entre os abusos relatados estão jornadas extremamente longas. A média semanal registrada foi de 59 horas, mas houve casos em que trabalhadores relataram até 91 horas de trabalho por semana.
As condições de moradia também foram apontadas como degradantes. Em algumas propriedades, até 28 trabalhadores dividiam um único banheiro, e os alojamentos não tinham acesso regular à água encanada.
Outro problema recorrente identificado pela pesquisa é a servidão por dívida. Muitos trabalhadores migrantes chegam às fazendas já endividados após pagar pelo transporte, ferramentas e equipamentos de proteção individual. Segundo o relatório, esses custos variam entre R$ 450 e R$ 2.300, criando uma dependência econômica que dificulta o rompimento do vínculo de trabalho.
Dados da Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego reforçam o cenário. Durante a safra de 2025, mais de 100 trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão no setor cafeeiro.
Para os pesquisadores, os números indicam que muitas empresas ainda tratam o risco de exploração laboral como um problema secundário, apesar da crescente pressão internacional por cadeias produtivas responsáveis.
Diante desse cenário, o relatório recomenda maior transparência nas cadeias produtivas, participação direta de trabalhadores e sindicatos na elaboração de políticas empresariais e a criação de mecanismos eficazes de reparação para vítimas de abusos.
“É preciso responsabilizar as empresas certificadoras que validam produtos associados a trabalho escravo e violações trabalhistas. Muitas vezes, a certificação acaba servindo apenas a interesses comerciais, sem garantir direitos aos trabalhadores. Por isso, defendemos mecanismos de responsabilização e a aprovação do PL 572, para que as empresas assumam a obrigação de monitorar suas cadeias produtivas e garantir o respeito aos direitos trabalhistas e humanos”, afirma Jorge.
"Não basta dizer que não concorda com o trabalho escravo. O que as empresas precisam fazer é, adotar medidas concretas para monitorar toda a sua cadeia produtiva, garantindo aí os direitos aos trabalhadores e trabalhadoras e assumindo uma responsabilidade real”, disse Marina Novaes, pesquisadora e representante do Centro de Empresas e Direitos Humanos no Brasil.
Para Rosalina, enfrentar o trabalho escravo contemporâneo exige mudanças estruturais no modelo agrícola e políticas públicas que garantam trabalho decente no campo.
Segundo ela, isso passa pela reforma agrária, demarcação de terras indígenas e quilombolas, incentivo à agroecologia, garantia da liberdade sindical e fortalecimento da fiscalização das condições de trabalho realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
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