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CUT NACIONAL > PONTO DE VISTA > SOBRE LIXEIROS E “ÂNCORAS”

Sobre lixeiros e “âncoras”

Escrito por: Shakespeare Martins, metalúrgico e dirigente nacional da CUT

18/01/2010



"Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros ... O mais baixo da escala do trabalho." Boris Casoy

 

O "âncora" do Jornal da Band ofereceu, sem querer, uma ótima oportunidade para a qualificação do debate sobre o significado que tem o trabalho e as profissões para  a organização social . De quebra ele ofendeu a todos trabalhadores de empresas de  asseio e conservação que prestam serviços públicos e privados, e parte dos empregados domésticos também. Apóio as justas e necessárias reações das entidades representativas dos garis, mas é preciso fazer “limonada com esse limão”. Ou, pelo menos, uma caipirinha.

 

Primeiro, é até bom que Boris Casoy demonstre ter uma escala e valor das profissões. Se o “lixeiro” é o mais baixo da escala do trabalho, que profissões seriam as intermediárias? E as mais altas, na opinião dele? Segundo, como classificar o trabalho do “gari” numa sociedade marcada pelo consumo de coisas supérfluas, de descartáveis e de bobagens de todos os tipos?

 

Estas perguntas nos fornecem um ótimo caminho para refletir sobre o tema, num momento em que muitos festejam uma possível perda de sentido do trabalho, como algo que identificasse classes sociais e projetos gerais de sociedade. Há intelectuais que defendem, inclusive, que o trabalho deve ser descartado como referência teórica, política, cultural, econômica e ideológica.

 

Porém, o citado jornalista quando rebaixa o gari ao último nível da escala de trabalho, acaba – mesmo que negativamente – classificando e atribuindo valores a outras atividades, resgatando, assim, a posição estratégica do trabalho na organização da sociedade. É verdade que ele não disse quais as profissões que ele acha de alto nível. Seria um banqueiro, um presidente de uma gigantesca mineradora, um executivo-chefe de uma montadora de automóveis, um presidente de um conglomerado como o grupo Votorantim?

 

Se for isso, e acredito que ele pense assim, temos opinião oposta à dele. O trabalho é importante sim: só que a turma do “topo” na escala do trabalho (como raciocina Casoy) é perfeitamente dispensável para o mundo funcionar. Se o presidente da Vale, por exemplo, resolver velejar, esquiar, surfar, afastando-se da empresa por uma semana, os operários, técnicos, engenheiros, o pessoal do setor administrativo, incluindo aí o pessoal da limpeza e serviços gerais, “tocam” a empresa muito bem.  Se um banqueiro, em face de uma crise de hemorróidas não for trabalhar, os bancários dão conta de tocar o banco.

 

Porém, se trabalhadores da mineradora e do tal banco resolvessem parar de trabalhar uma semana, o mais alto executivo, mesmo que apoiado por seus melhores assessores, não toca suas atividades. A Vale pára e o banco também. Ou seja, aqueles que estariam, na opinião de Casoy, no topo da escala do trabalho, para nós  são dispensáveis, em se tratando de “fazer o mundo funcionar”. São parasitas. E isso não é uma ofensa particular a ninguém. O caráter parasitário do “chefe” é dado na própria estrutura produtiva do capitalismo: o executivo-chefe de uma empresa é um funcionário do capital (que pode ser descartado a qualquer momento), não agrega valor ao “produto final” de sua atividade, é remunerado com base no trabalho alheio e anônimo de milhares de pessoas que ele nem sequer conhece e, principalmente, suas atividades gerenciais podem ser substituídas pela ação coletiva dos trabalhadores. A experiência da autogestão comprova isso.

 

Assim, o âncora do jornal da Band acerta em confirmar que há uma escala social de importância na ordem do trabalho, para funcionar a sociedade. Só que erra ao desqualificar os garis e, indiretamente, valorizar os “parasitas que se nutrem do nosso sangue” e do nosso suor.

 

Mas, qual é o papel e a importância dos trabalhadores de limpeza, asseio e conservação na produção de uma vida mais saudável? Um médico, professor da UFMG, Apolo Lisboa, certa vez disse que o gari deveria ser reconhecido como “um dos mais importantes trabalhadores da área de saúde”. Ele tem razão. Ah, e o gari é também um profissional ecologista e paisagista. Alguém teria dúvida disso?

É só fazer um teste: realizemos uma greve nacional, de uma semana, de todas as trabalhadoras e trabalhadores que varrem ruas, praças, estabelecimentos públicos e privados, residências, condomínios, que recolhem lixo (incluindo catadores), os que o transportam para os aterros e lixões etc. E que seja feita também, simultaneamente, um greve de “âncoras” do jornalismo brasileiro. Quem fará mais falta à saúde, ao meio ambiente e à paisagem das cidades? A “classe” dos âncoras ou a dos garis?

 

Ao invés de obrigar o Sr. Boris Casoy a fazer uma retratação forçada, a TV Bandeirantes poderia fazer uma limonada com esse “limão”: abrindo um debate sobre o papel do trabalho na construção da riqueza de nosso país. Quanto ao jornalista, desejo um feliz 2010 e que muitas vassouras varram os conceitos reacionários de seu cérebro.

 



 

 


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