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Alinhada ao mercado, direção da Petrobrás eleva truculência

Para diretor da FUP, João de Moraes, Conselho de Administração da empresa, cheio de representantes do setor financeiro, bloqueia diálogo com petroleiros e trata greve com violência

Escrito por: Luiz Carvalho • Publicado em: 05/11/2015 - 20:30 • Última modificação: 06/11/2015 - 01:29 Escrito por: Luiz Carvalho Publicado em: 05/11/2015 - 20:30 Última modificação: 06/11/2015 - 01:29

Rovena Rosa - Agência Brasil Trabalhadores da Petrobras em manifestação na refinaria de Cubatão


A guinada da Petrobrás para atender aos interesses do mercado financeiro tem sua face mais visível na política que reduz investimentos em R$ 700 bilhões, incluindo a venda de participação, ações e ativos. A medida, que pode significar a perda de 20 milhões de postos de trabalho no país, reflete, porém, um problema muito maior.

Nesta quinta-feira (5), quarto dia de greve dos petroleiros, o secretário de Relações Internacionais e de Empresas Privadas da FUP (Federação Única dos Petroleiros), João Antonio Moraes, apontou que a majoritária participação de burocratas do mercado no Conselho de Administração (CA) fecha as portas para o diálogo com os trabalhadores e leva a situações como a paralisação que atinge o sistema operacional da estatal em todo o país.

Seja por acreditar que a classe trabalhadora é incapaz de apresentar uma alternativa ao plano de gestão definido pela empresa, seja por simplesmente optar pelo mercado como forma de resgatar a “credibilidade”, ressaltou Moraes, o fato é que os petroleiros avaliam a opção da empresa como um grande equívoco, que se materializa também no crescimento da truculência.

Em entrevista coletiva, o dirigente lembrou que na Bahia e em São Paulo, três manifestantes foram agredidos e presos e que a Petrobras tem recorrido a interditos proibitórios, medida judicial que impede os trabalhadores de chegarem próximos ao local de trabalho, sob pena de multas que atingem até R$ 100 mil.  

“Nesta greve temos um patamar de truculência nunca antes visto. O terminal de São Caetano (onde foram presos os petroleiros Jair Campos e Pedro Almeida) estava ocupado nesta manhã por policiais de maneira nunca antes vista. Isso é efeito do aumento da truculência e da predominância de um perfil financista no conselho”, definiu.

Petrobrás para todos

Moraes ressalta que o problema se torna ainda maior por conta da categoria ter aberto mão de discutir pautas salariais para debater a Pauta pelo Brasil, conjunto de propostas elaboradas pela FUP ao plano de desinvestimento.

De acordo com o dirigente, há quatro meses a categoria tenta debater com o governo as revindicações, mas a estatal se recusou, inclusive faltando a uma audiência convocada pelo Ministério Público na semana que antecedeu a greve.

Ele reforçou que o foco não é discutir a campanha salarial, que ainda assim, na proposta da Petrobrás, começaria com a redução de 90 cláusulas no acordo coletivo e correção dos salários abaixo da inflação. Mas ir além dessa agenda negativa para não colocar em risco o desenvolvimento do país.

Para Moraes, greve vai muito além da categoria e precisa de apoio da sociedade para impedir destruição da Petrobrás (Foto: Roberto Parizotti)Para Moraes, greve vai muito além da categoria e precisa de apoio da sociedade para impedir destruição da Petrobrás (Foto: Roberto Parizotti)Esse agenda se aplica em ações como a paralisação da construção do Comperj (Complexo Petroquímicos do Rio de Janeiro), parte do plano de negócios da estatal, refém da Operação Lava Jato.

Foram investidos R$ 14 bilhões, 80% da obra está concluída, mas a finalização das refinarias emperrou porque as empresas responsáveis estão sendo investigadas.

João de Moraes explica que o país tem produção excedente de óleo cru, mas que as refinarias estão no gargalo. Portanto, se o Brasil crescer em 2016, pode ter de importar derivados maciçamente.

“O governo dos EUA, durante a crise, salvou a GM (General Motors) para salvar os EUA. E o Estado brasileiro olha de longe, deixando a empresa se virar”, comparou.

Alvo internacional

Para Moraes, a agenda que está na Petrobrás hoje é semelhante a de 2002, de paralisar a empresa, deixá-la menor e colocá-la em condições de fragilidade para retomar a ideia de concessão. Situação que só mudou em 2003, com a posse do ex-presidente Lula e da nomeação de José Eduardo Dutra para a presidência da estatal.

“O pré-sal é uma das maiores reservas descobertas no mundo nos últimos 30 anos e isso só ocorreu por conta dos investimentos da empresa”, disse.

Uma reserva de petróleo leva de 15 a 20 anos para se tornar comercialmente significativa, enquanto o pré-sal levou seis anos e já é responsável por quase 50% do petróleo que o país consome.

O dirigente vai além ao lembrar o papel estratégico da estatal, que saltou de 3% (2002) para 13% do PIB (Produto Interno Bruto), correspondendo ainda a 20% do total de investimentos no país e 40% do que é aplicado na área industrial.

“Isso foi despertando para os conservadores a ideia de que era preciso colocar freio e criar condições de disputa política. Por isso os ataques de parte da mídia, da Lava Jato e de ações internacionais como quando o mecanismo de rating da Pricewaterhouse se recusou misteriosamente a assinar o balanço da empresa em 2014. Há interesses internacionais pesadíssimos, não só sobre o petróleo, mas sobre construtoras também”, diz ele.

Propostas

Na contramão dessa agenda, a Pauta pelo Brasil defende a reestruturação dos postos de venda de combustível, a instalação de cabos de fibra ótica na faixa dos dutos para arrecadar e, como em 2012, ampliar acordos de financiamento usando as próprias reservas de petróleo como meio pagador.

Outra alternativa é construir parcerias com a China para financiamento de projetos por meio do Banco de Infraestrutura da China e o Novo Banco de Desenvolvimento criado pelos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).

Caminhos que não passam por entregar o petróleo ao capital estrangeiro. “Os EUA têm dois pilares de sustentação, a ‘maquininha de gerar moeda’ e as armas. E usa os dois para controlar a energia, o Irã que o diga. O exemplo do Iraque também é ímpar. Ouvi de um petroleiro iraquiano em um encontro da Shell que, antes ocupação militar, a estatal local cobrava pela extração US$ 6 a US$ 7 por barril e as multinacionais estão cobrando US$ 27 dólares. Esse número bota a Lava-Jato no chinelo”, avaliou Moraes.

1995?

Trinta anos após a maior greve dos petroleiros, o diretor da FUP lembra que a luta contra a ocupação de refinarias por militares conseguiu impedir a privatização da Petrobrás, ainda que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha conseguido quebrar o monopólio do petróleo.

Ele diz que a categoria está preparada para lidar com o que for necessário, mas não espera ver tanques em um governo progressista. “Estamos preparados para enfrentar exército em refinaria se for preciso, mas não espero que seja atitude da presidenta Dilma, tendo um comunista à frente do Ministério da Defesa”, definiu.

João Moraes lembra que, naquela ocasião, o mundo ainda respirava o consenso de Washington, acredita em política de privatização, mas também ressalta que o discurso naufragou em todos os lugares onde foi implementado, sem que nada novo tenha surgido.

“Diziam que tinha de quebrar monopólio porque a Petrobrás não tinha condições de fazer refinaria. O FHC quebrou monopólio e, de 95 a 2002, quantas refinarias fizeram? Nenhuma. Temos que perguntar qual nação entrou em crise, seguiu receituário neoliberal e saiu dela. Se dependesse de mercado, o Brasil estaria importando combustível em massa”, criticou.

Para não repetir o que ocorre com o minério de ferro, em que o país exporta a matéria bruta e importa aço, que gera 10 vezes mais desenvolvimento e renda, ele defende uma nova campanha com caráter semelhante àquela que criou a Petrobrás.

“Todos os setores que se mobilizaram pela campanha ‘O petróleo é nosso’, nos anos 1940 e 1950, desde comunistas até militares, deveriam olhar para essa greve e se mobilizar. Até porque, os udenistas que eram contra continuam aí fazendo propostas de entreguismo em circulação no Congresso Nacional.”
 

Título: Alinhada ao mercado, direção da Petrobrás eleva truculência, Conteúdo: A guinada da Petrobrás para atender aos interesses do mercado financeiro tem sua face mais visível na política que reduz investimentos em R$ 700 bilhões, incluindo a venda de participação, ações e ativos. A medida, que pode significar a perda de 20 milhões de postos de trabalho no país, reflete, porém, um problema muito maior. Nesta quinta-feira (5), quarto dia de greve dos petroleiros, o secretário de Relações Internacionais e de Empresas Privadas da FUP (Federação Única dos Petroleiros), João Antonio Moraes, apontou que a majoritária participação de burocratas do mercado no Conselho de Administração (CA) fecha as portas para o diálogo com os trabalhadores e leva a situações como a paralisação que atinge o sistema operacional da estatal em todo o país. Seja por acreditar que a classe trabalhadora é incapaz de apresentar uma alternativa ao plano de gestão definido pela empresa, seja por simplesmente optar pelo mercado como forma de resgatar a “credibilidade”, ressaltou Moraes, o fato é que os petroleiros avaliam a opção da empresa como um grande equívoco, que se materializa também no crescimento da truculência. Em entrevista coletiva, o dirigente lembrou que na Bahia e em São Paulo, três manifestantes foram agredidos e presos e que a Petrobras tem recorrido a interditos proibitórios, medida judicial que impede os trabalhadores de chegarem próximos ao local de trabalho, sob pena de multas que atingem até R$ 100 mil.   “Nesta greve temos um patamar de truculência nunca antes visto. O terminal de São Caetano (onde foram presos os petroleiros Jair Campos e Pedro Almeida) estava ocupado nesta manhã por policiais de maneira nunca antes vista. Isso é efeito do aumento da truculência e da predominância de um perfil financista no conselho”, definiu. Petrobrás para todos Moraes ressalta que o problema se torna ainda maior por conta da categoria ter aberto mão de discutir pautas salariais para debater a Pauta pelo Brasil, conjunto de propostas elaboradas pela FUP ao plano de desinvestimento. De acordo com o dirigente, há quatro meses a categoria tenta debater com o governo as revindicações, mas a estatal se recusou, inclusive faltando a uma audiência convocada pelo Ministério Público na semana que antecedeu a greve. Ele reforçou que o foco não é discutir a campanha salarial, que ainda assim, na proposta da Petrobrás, começaria com a redução de 90 cláusulas no acordo coletivo e correção dos salários abaixo da inflação. Mas ir além dessa agenda negativa para não colocar em risco o desenvolvimento do país. Esse agenda se aplica em ações como a paralisação da construção do Comperj (Complexo Petroquímicos do Rio de Janeiro), parte do plano de negócios da estatal, refém da Operação Lava Jato. Foram investidos R$ 14 bilhões, 80% da obra está concluída, mas a finalização das refinarias emperrou porque as empresas responsáveis estão sendo investigadas. João de Moraes explica que o país tem produção excedente de óleo cru, mas que as refinarias estão no gargalo. Portanto, se o Brasil crescer em 2016, pode ter de importar derivados maciçamente. “O governo dos EUA, durante a crise, salvou a GM (General Motors) para salvar os EUA. E o Estado brasileiro olha de longe, deixando a empresa se virar”, comparou. Alvo internacional Para Moraes, a agenda que está na Petrobrás hoje é semelhante a de 2002, de paralisar a empresa, deixá-la menor e colocá-la em condições de fragilidade para retomar a ideia de concessão. Situação que só mudou em 2003, com a posse do ex-presidente Lula e da nomeação de José Eduardo Dutra para a presidência da estatal. “O pré-sal é uma das maiores reservas descobertas no mundo nos últimos 30 anos e isso só ocorreu por conta dos investimentos da empresa”, disse. Uma reserva de petróleo leva de 15 a 20 anos para se tornar comercialmente significativa, enquanto o pré-sal levou seis anos e já é responsável por quase 50% do petróleo que o país consome. O dirigente vai além ao lembrar o papel estratégico da estatal, que saltou de 3% (2002) para 13% do PIB (Produto Interno Bruto), correspondendo ainda a 20% do total de investimentos no país e 40% do que é aplicado na área industrial. “Isso foi despertando para os conservadores a ideia de que era preciso colocar freio e criar condições de disputa política. Por isso os ataques de parte da mídia, da Lava Jato e de ações internacionais como quando o mecanismo de rating da Pricewaterhouse se recusou misteriosamente a assinar o balanço da empresa em 2014. Há interesses internacionais pesadíssimos, não só sobre o petróleo, mas sobre construtoras também”, diz ele. Propostas Na contramão dessa agenda, a Pauta pelo Brasil defende a reestruturação dos postos de venda de combustível, a instalação de cabos de fibra ótica na faixa dos dutos para arrecadar e, como em 2012, ampliar acordos de financiamento usando as próprias reservas de petróleo como meio pagador. Outra alternativa é construir parcerias com a China para financiamento de projetos por meio do Banco de Infraestrutura da China e o Novo Banco de Desenvolvimento criado pelos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Caminhos que não passam por entregar o petróleo ao capital estrangeiro. “Os EUA têm dois pilares de sustentação, a ‘maquininha de gerar moeda’ e as armas. E usa os dois para controlar a energia, o Irã que o diga. O exemplo do Iraque também é ímpar. Ouvi de um petroleiro iraquiano em um encontro da Shell que, antes ocupação militar, a estatal local cobrava pela extração US$ 6 a US$ 7 por barril e as multinacionais estão cobrando US$ 27 dólares. Esse número bota a Lava-Jato no chinelo”, avaliou Moraes. 1995? Trinta anos após a maior greve dos petroleiros, o diretor da FUP lembra que a luta contra a ocupação de refinarias por militares conseguiu impedir a privatização da Petrobrás, ainda que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha conseguido quebrar o monopólio do petróleo. Ele diz que a categoria está preparada para lidar com o que for necessário, mas não espera ver tanques em um governo progressista. “Estamos preparados para enfrentar exército em refinaria se for preciso, mas não espero que seja atitude da presidenta Dilma, tendo um comunista à frente do Ministério da Defesa”, definiu. João Moraes lembra que, naquela ocasião, o mundo ainda respirava o consenso de Washington, acredita em política de privatização, mas também ressalta que o discurso naufragou em todos os lugares onde foi implementado, sem que nada novo tenha surgido. “Diziam que tinha de quebrar monopólio porque a Petrobrás não tinha condições de fazer refinaria. O FHC quebrou monopólio e, de 95 a 2002, quantas refinarias fizeram? Nenhuma. Temos que perguntar qual nação entrou em crise, seguiu receituário neoliberal e saiu dela. Se dependesse de mercado, o Brasil estaria importando combustível em massa”, criticou. Para não repetir o que ocorre com o minério de ferro, em que o país exporta a matéria bruta e importa aço, que gera 10 vezes mais desenvolvimento e renda, ele defende uma nova campanha com caráter semelhante àquela que criou a Petrobrás. “Todos os setores que se mobilizaram pela campanha ‘O petróleo é nosso’, nos anos 1940 e 1950, desde comunistas até militares, deveriam olhar para essa greve e se mobilizar. Até porque, os udenistas que eram contra continuam aí fazendo propostas de entreguismo em circulação no Congresso Nacional.”  



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