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FSM 2010 - Porto Alegre, 10 anos depois

26/01/2010

CUT: “Compreendemos o momento de crise visualizando o conjunto da sociedade e não só o mundo do trabalho”, afirma João Felício.

Escrito por: Paula Brandão, de Porto Alegre


Um dos principais eventos do Fórum Social Mundial 2010 – Porto Alegre, o seminário ’"10 anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível” debateu nesta terça-feira (26) a conjuntura mundial hoje, no aspecto político, social econômico e ambiental.

 

O auditório Dante Barone, na Assembléia Legislativa, ficou completamente lotado para o debate de conjuntura econômica, que contou com as explanações de David Harvey da City University of New York (EUA); Susan George, da ATTAC (França), Paul Singer, da Faculdade de Economia da USP e João Felício, secretário de Relações Internacionais da CUT Brasil.

 

Harvey propõe uma transição ao capitalismo e inicia o debate com um retrospecto sobre do sistema nos últimos 30 anos. Ressalta que muitas das principais mudanças ocorridas durante esse período, há pouco não eram nem imaginadas, o que deveria nos levar a uma outra visão do que é crise. Ele cita como exemplos os casos da China e da Índia, países que cresceram muito economicamente nos últimos anos.  O professor destaca que a crise internacional é fruto da desregulamentação da economia, também responsável por outras diversas crises que o mundo já enfrentou. “Nos últimos 30 anos, vimos crises centradas no sistema financeiro. Isso ocorre porque a quantidade de riqueza está cada vez mais em papel e não em valor real. Observamos que nesta crise alguns estão ficando bem mais ricos. Os bilionários dobraram seu patrimônio no ano passado. Então perguntamos: de onde vem esse dinheiro? Vem das commodities, vem das privatizações”, sublinhou..

 

O professor defende uma transformação social ampla e admite que trata-se de um processo de longo prazo. “Uma transformação revolucionária ainda é possível e temos que reconhecer isso, porque é imperativo que ela aconteça”.

 

Seguindo a mesma linha de Harvey, Susan George diz que a palavra crise talvez não seja a apropriada. “O que vivenciamos na verdade são crises que se fundem – econômica, social, ecológica, sendo que esta última nos causará mais problemas. Há também a crise de conflitos, não apenas ocupacionais, caso dos que ocorrem no Iraque ou no Afeganistão, mas de necessidades básicas, onde se inclui o uso da água, alimentos e o aumento de refugiados ecológicos.” Segundo Susan a causa desta situação é porque hoje vivemos em uma lógica de círculos concêntricos, onde o financeiro se sobrepõe ao econômico, ao social e, especialmente, ao ecológico. Ela propõe a inversão da ordem desses círculos, de forma que o meio ambiente dite as regras, a sociedade seja livre e democrática e a economia esteja a serviço da sociedade.

 

Mesa sobre conjuntura econômicaJoão Felício fala sobre a postura do movimento sindical cutista perante à  crise e relata algumas propostas que a CUT apresenta como saídas para o momento que vivemos hoje. “Sempre compreendemos o momento visualizando o conjunto da sociedade e não só o mundo do trabalho. Ao mesmo tempo em que construímos propostas para manter e garantir empregos durante a crise internacional, estamos pensando em como chegaremos ao poder público para reivindicar isso. Quero dizer que não basta reivindicar empregos. Nossa preocupação é que tipo de empregos queremos e reivindicamos, ou seja, nossa defesa é para que esteja vinculado ao trabalho decente, às questões ambientais, à sustentabilidade, que por sua vez, estão atrelados ao projeto de desenvolvimento que queremos.

 

Segundo Felício, é momento dos movimentos sociais darem mais amplitude à chamada disputa de hegemonia. “Acredito que estamos mudando o Brasil e isso nos coloca, o movimento sindical e social, perante mais um desafio, onde existem várias combinações: qual o projeto que queremos? O que é imediato e o que é histórico para que os neoliberais não voltem mais a governar o país e para que possamos construir a sociedade que queremos? Não podemos retroceder e ,para isso, precisamos ter uma dimensão mundial e voltar a ter uma perspectiva histórica para avançarmos, reitera.

 

Para Paul Singer, a essência desta discussão está no confronto de classes. Ele afirma que a polarização desta luta é decorrente da divisão entre os países que estão voltando ao crescimento. “Esta divisão é evidente entre as empresas que atualmente dão as cartas na economia e o ‘resto’ da sociedade, especialmente, os trabalhadores”. Singer acredita que pessoas que hoje são socialmente uma minoria, podem vir a ser politicamente uma maioria. “Hoje são os camponeses quem fazem a agroecologia. Não são as universidades, nem os laboratórios, mas sim, as pequenas unidades da agricultura familiar, que se organizam, se comunicam e disseminam esses conhecimentos. A internet tem muito a ver com isso”, diz.

 

O professor dá alguns exemplos da economia solidária e defende: “Ela era um sonho e hoje é uma pequena realidade que significa 1% da economia brasileira. É pouco, e ao mesmo tempo é muito, pois evoluiu de forma impressionante, atingindo uma taxa de crescimento em torno de 20% ao ano. Ela dá certo porque é humana, porque consegue competir, crescer e se afirmar perante à economia capitalista. Ela existe e dá certo porque traz felicidade e não apenas em reais ou dólares, reflete.

 

O encontro terminou com um rico debate entre convidados e platéia que durou mais de horas, o que demonstrou, mais uma vez, que o Fórum é um dos raros espaços no mundo criados onde há uma aliança entre os movimentos sociais e a academia por um novo mundo possível.

 

 

 

 

 

 


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