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Combate ao trabalho escravo

28/01/2010

Em SP, movimentos elaboram pacto contra trabalho degradante nas confecções. Em Brasília, parlamentares têm de aprovar leis contra tráfico humano e escravidão

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Entidades sindicais e de defesa dos direitos humanos estão buscando consolidar um pacto nacional para o combate ao trabalho degradante e escravo na cadeia produtiva do vestuário. Informalmente chamado de pacto das confecções, tem por objetivo disciplinar a precarização da mão-de-obra, usada abundantemente através da contratação de oficinas informais, e retirar do trabalho análogo ao escravo um grande contingente de migrantes.


O pacto já foi assinado por entidades do movimento social e sindical e por órgãos governamentais de fiscalização do trabalho. O que falta é a adesão das grandes empresas, aí incluídas as grifes de moda e redes de lojas. Através do mapeamento de toda a cadeia produtiva (do plantio do algodão às oficinas de costura, passando pelo transporte dos produtos) e da identificação de empresas que utilizam mão-de-obra análoga à escravidão, os signatários do pacto se comprometem a não adquirir nem vender produtos para quem estiver na chamada "lista suja".

Esse tema foi debatido nesta quinta, 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, em Fórum Estadual realizado na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo. A data também foi marcada por outras atividades realizadas pelo Brasil.

Na capital paulista, o setor de confecções foi o objeto principal dos debates pelo fato de a cidade concentrar um grande número de oficinas de costura, formais ou não, e receber grandes contingentes de migrantes, principalmente bolivianos, que em sua maioria trabalham sem direitos, enfrentam longas jornadas e muitas vezes concentram a vida laboral e a doméstica num só lugar.

O pacto das confecções tem inspiração no Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, uma iniciativa do Observatório Social-CUT, OIT (Organização Internacional do Trabalho, órgão da ONU), Instituto Ethos e pela ONG e agência de notícias Repórter Brasil. Com a ajuda dos órgãos fiscalizadores estatais - imprescindíveis para a localização e punição de quem utiliza mão-de-obra escrava - o Pacto, em vigor desde maio de 2005, tem atualmente a adesão de empresas que representam mais de 25% do PIB nacional.

Ao apresentar o projeto, Maurício Monteiro, da Repórter Brasil, citou o recente episódio envolvendo a Cosan, incluída na "lista suja" do trabalho escravo. Detentora das marcas de açúcar Da Barra e União e de combustíveis Esso, a Cosan passou oito dias na lista, com razoável divulgação pela grande imprensa.

"Foram dias em que muitos fornecedores e clientes suspenderam seus negócios com a Cosan. Pressionada no aspecto financeiro, a empresa foi bastante ágil em solucionar e reparar os casos flagrados", lembra Monteiro. "Infelizmente, conceitos como Estado Democrático de Direito ou direitos humanos ainda não são suficientes para convencer um ‘board' de diretores e acionistas a rever práticas criminosas", completou, sintetizando o espírito do Pacto Nacional.

Detalhe: para espalhar a notícia de que a Cosan estava na lista suja, entidades como a Repórter Brasil recorreram a seus contatos no mundo empresarial e na grande imprensa. "Tem de publicizar", indica Monteiro.

Nova legislação - Outro tema abordado pelo 1º Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo foi o tráfico de pessoas, um dos mecanismos que sustentam a escravidão.

Anália Beliza Ribeiro, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas em São Paulo, órgão do Ministério da Justiça, fez uma breve apresentação da estrutura do sistema e das ações praticadas atualmente. Mas, principalmente, anunciou a existência de um projeto de lei que, pela primeira vez, vai tipificar o crime de tráfico de pessoas no Brasil, país que não tem legislação específica.

"Hoje em dia nos baseamos no Protocolo de Palermo, um documento de diretrizes internacionais, e usamos pedaços de outras legislações para tentar punir os criminosos. Mas com o vácuo legal ainda existente, não há como prender alguém por tráfico humano", explicou Anália. Ela defendeu que os movimentos sociais incluam em sua pauta a exigência de que os parlamentares aprovem o projeto, de autoria de Nelson Pelegrino (PT-BA) e relatado por Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), que está na Comissão de Justiça do Congresso Nacional.

Anália destaca que o projeto foi elaborado após debate amplo e democrático com movimentos dos direitos humanos e com especialistas em legislação. "É um projeto muito bom, completo, que vai nos ajudar a encontrar um outro patamar no combate ao tráfico de pessoas, hoje apontado pela ONU como a segunda mais lucrativa indústria do crime, perdendo só para o tráfico de armas".

A CUT, além dessas ações, defende também a imediata aprovação da PEC de Combate do Trabalho Escravo, que destinará para a reforma agrária terras onde for flagrada a prática criminosa. Parada no Congresso, a PEC enfrenta resistência dos ruralistas.



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