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05/03/2010
A ascensão chinesa na economia global tem provocado transformações na estrutura econômica de vários países e afeta direta e indiretamente a classe trabalhadora, o que implica na necessidade dos países tomarem medidas de proteção do seu mercado interno e dos direitos sociais conquistados. Recente levantamento organizado pela Rede Latino-Americana de Pesquisa em Empresas Multinacionais (RedLat), com apoio da central sindical holandesa FNV, analisou os impactos e os perigos da ascensão chinesa na economia dos sete países membros da RedLat (Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai). Aqui no Brasil, o estudo foi coordenado pelo Instituto Observatório Social, entidade criada pela CUT. O Portal do Mundo do Trabalho ouviu o presidente do Observatório Social e diretor executivo da CUT, Aparecido Donizeti da Silva, que falou sobre a pesquisa e sobre os desdobramentos e resoluções do Seminário “A presença econômica chinesa na América Latina e as conseqüências para o mundo do trabalho", ocorrido nos dias 2 e 3 de fevereiro, no Rio de Janeiro.
Portal do Mundo do Trabalho – Quando e como surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre a influência econômica chinesa na América Latina?
Aparecido Dozineti – Foi em 2005, num projeto da FNV, parceira do Observatório Social. No momento em que nós estávamos discutindo convênios veio a proposta para que nós conhecêssemos melhor que tipo de investimento estava sendo feito pela China na América Latina e suas consequências.
Como foi o processo de construção desta pesquisa?
Dentro do processo de parceria com a FNV havia o desenvolvimento e a construção de uma Rede Latino-Americana de Pesquisa em Empresas Multinacionais, a RedLat. Nós juntamos tanto centrais como institutos de pesquisa em sete países e construímos um responsável neste processo. Foi neste sentido que desenvolvemos a rede latino-americana e que começamos a construir a pesquisa sobre a influência econômica da China na América Latina. Esse estudo tem o objetivo de preencher um espaço, já que os movimentos sociais da região não contam com uma reflexão apronfundada sobre o fenômeno China, enquanto governos e empresariado, ainda que de forma limitada, já se posicionam para lidar com o avanço econômico e geopolítico do país asiático.
Qual a importância do engajamento de entidades internacionais, como no caso desta pesquisa da FNV, em projetos que auxiliem e pautem o movimento sindical e o mundo do trabalho?
É muito importante, porque primeiro é uma organização europeia. Eu acho que eles, principalmente Holanda, Alemanha, Espanha têm uma experiência importante que a América Latina ainda precisa alcançar que é o diálogo social mais consistente, as normas da OIT mais respeitadas para os trabalhadores e trabalhadoras no local de trabalho. Neste processo eles estão mais avançados e por isso é tão importante essa troca de experiências. Por outro lado, a América Latina também tem muito que contribuir. No meu ponto de vista, o movimento sindical latino-americano, em especial o Brasil, está embasado na sua consistência totalmente em lutas e conquistas. Não tínhamos centrais sindicais reconhecidas, o que ocorreu há dois anos, mas já tínhamos um peso político nos governos da América Latina. Então, o desenvolvimento, a luta dos trabalhadores brasileiros e latinos, também vale como uma experiência para os europeus.
A ascensão chinesa impõe novos dilemas para os países da America Latina, impactando a agenda do desenvolvimento e as perspectivas para o mundo do trabalho. Nos dias 2 e 3 de fevereiro aconteceu o Seminário onde foram apresentados os resultados da pesquisa. Como você avalia o resultado deste seminário? Quais ações foram definidas pelo movimento sindical latino-americano?
Levando em consideração o peso político do tema, nós alcançamos o objetivo. Contamos com a presença dos diferentes atores sociais, da direção nacional da CUT, dos empresários e dos governos brasileiro e chinês. A presença de toda a RedLat, com os representantes dos sete países membros é algo a ser destacado, já que todos tiveram a oportunidade de mostrar a sua síntese dessa relação com a China; inclusive a África, que até então, tínhamos muita dificuldade de trazer algum representante. Em relação aos encaminhamentos ainda falta parceria, continuidade de financiamento para nós tocarmos a RedLat. O ideal era estarmos agora desenvolvendo uma política em cima das conclusões tiradas durante o Seminário. No tocante ao Brasil, estiveram presentes quatro Confederações filiadas à CUT: CNTV, CTNSM, CNM e Conticom. Só a CNQ não esteve presente, mas depois pegou o relatório. A partir deste ponto vamos estimular que essas Confederações desenvolvam políticas para responder essa síntese que apontamos. Porém, ainda acho que o observatório tem que continuar acompanhando este temática por pelo menos mais um ano, para consolidar de fato as aprovações. Se deixarmos somente para cada Confederação ou país acho que não será eficaz, porque a dinâmica sindical tem outras prioridades, como redução da jornada, a regulamentação da terceirização, entre outras questões.
Muitos avaliam que o modelo econômico chinês é caracterizado pela abundância de mão-de-obra, baixos salários, precarização das relações de trabalho e barreiras à sindicalização. Evidentemente, quando as empresas chinesas se fixam em outros países, ela traz consigo esta perspectiva de relação trabalhista. Quais ações que o movimento sindical latino-americano deve tomar para precaver e combater estas práticas anti-trabalhistas?
Não é bem assim, isso é um mito. Eu estive na China e pude verificar que os salários dos trabalhadores não são baixos da forma como divulgam. Em relação ao trabalho escravo não estou dizendo que não exista, mas não é dessa forma como é colocada. A jornada de trabalho semanal de 40 horas já é uma realidade no país, o que aqui no Brasil a CUT juntamente com as outras centrais ainda estão lutando para que este direito se concretize. Obviamente que a China não tem as mesmas regulamentações como no Brasil. Agora, nós temos que tirar esse rótulo da China e trabalhar um projeto de desenvolvimento comercial e industrial. Eu acho que a CUT e as centrais precisam estar em Fóruns, Seminários discutindo uma política de desenvolvimento onde a China esteja incluída.
Falando especificamente do Brasil, quais são as áreas onde há maior atuação das empresas e dos produtos chineses e quais as conseqüências para o trabalhador?
São dois momentos. Houve um primeiro impacto muito forte no setor de vestuário. Atualmente a atuação chinesa está voltada mais para a área metalúrgica. Por isso precisamos desenvolver rapidamente esta política de desenvolvimento aonde todos possam ganhar, sem prejuízos para a classe trabalhadora.
Depois de alguns conceitos tirados com a pesquisa e os debates feitos durante o Seminário, como você avalia a relação com a China: parceria ou competição?
Uma parceria. Não tem como competir. Não tem como país nenhum do mundo, inclusive os EUA, sobreviver sem a China. É um país que cresce 8% com crise e sem crise vai ser 12, 13%. O que precisamos é uma política de desenvolvimento e uma política comercial. Inclusive estamos pensando numa atuação em três frentes, uma relação tripartite. Porém, os trabalhadores ainda encontram dificuldade de ocupar o mesmo espaço que governo e empresários. Precisamos lutar para que o movimento sindical se torne central nessa relação.
Esta primeira apresentação foi dos resultados preliminares. O que será feito a partir destas conclusões?
Basicamente duas coisas. Primeiro nós estamos trabalhando uma publicação com as resoluções deste Seminário. Temos a perspectiva que ela seja apresentada no final de maio. Num segundo momento, nós estamos buscando parcerias para continuar o trabalho em cima das sínteses apresentadas no Seminário e nos seus desdobramentos.
Você esteve na China nesses últimos dias representando a CUT no Fórum sobre Globalização Econômica e Sindicalismo 2010. Qual a avaliação deste encontro?
Este Fórum foi um espaço muito importante no aspecto de conhecermos como os países em desenvolvimento estão saindo desta crise econômica. Todos os países mantiveram como preponderantes políticas de fortalecimento do estado, sem redução de salário ou demissão em massa. A atividade contou com a participação de 176 nações, só os países do G7 não estavam presentes. Teve uma mesa que foi montada só com sindicalistas dos países da BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), onde o que se viu foi a ratificação do estado forte, a política de estado mínimo caiu por terra. A saída da crise não é com demissão, é com inclusão, com investimento interno, em infraestrutura, incluindo trabalhadores num processo de desenvolvimento. Em relação à China, muitas reuniões foram feitas. Aproximamos o intercâmbio com a FCTU, central sindical chinesa que patrocinou todo esta atividade. Ficou acordado que nos próximos 60 dias de nós apresentarmos enquanto CUT, Observatório Social, uma proposta de parceria que possa contemplar às partes.
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