Twitter Facebook YouTube Conexão Sindical

NATIONAL CUT > LIST NEWS > DESTAQUE CENTRAL > FINANCIAMENTOS DO BNDES PARA MÉDIAS EMPRESAS CAEM 12,1%

Financiamentos do BNDES para médias empresas caem 12,1%

20/06/2012

Multinacionais levaram 70,58% dos empréstimos acima de R$ 100 milhões destinados à indústria

Written by: Carlos Lopes/Hora do Povo

De janeiro a abril de 2011, os financiamentos do BNDES para o setor industrial somaram R$ 10,5 bilhões. Já este ano, no mesmo período, esses financiamentos montaram a R$ 9,4 bilhões. Portanto, houve uma queda de -10,5%.

Na mesma comparação, o montante destinado às médias empresas, contingente mais importante das empresas nacionais, caiu 12,1% (de R$ 3,9 bilhões para R$ 3,4 bilhões) e o financiamento para as micro e pequenas empresas caiu 6,7% (de R$ 8,4 bilhões para R$ 7,8 bilhões).

Lembremos que os financiamentos do BNDES já haviam caído 18% de 2010 para 2011 – e os da área industrial caíram 19% (ver HP, 20/01/2012). Portanto, a queda de -10,5% nos financiamentos do BNDES para a área industrial, no primeiro quadrimestre de 2012, se dá em cima de outra queda, -19%, de 2010 para 2011”).

Diante de quedas em cima de quedas nos financiamentos da única fonte que os empresários nacionais (além de seus recursos próprios) dispõem para investimentos, é compreensível porque, mesmo com os juros básicos em queda, a economia não se levanta. Sem financiamento público, o investimento não pode subir. Com o consumo amarrado por uma contenção salarial, o resto é o que se poderia esperar. Não se pode crescer, se a política econômica, apesar da redução nos juros básicos e de uma certa correção no câmbio, ainda é a de segurar e até mesmo derrubar o crescimento.

Não temos, ainda, as empresas que receberam financiamentos do BNDES no primeiro quadrimestre deste ano. Mas o banco já informou – o que é sempre um ponto positivo – quais as empresas que receberam financiamentos em 2011. Vamos nos concentrar naqueles financiamentos mais importantes da área industrial - aqueles iguais ou maiores do que R$ 100 milhões:

1)         O maior financiamento do BNDES em 2011, na área industrial, foi para a Vivo, pertencente à Telefónica de Espanha: R$ 3.031.110.000 (três bilhões, 31 milhões e 110 mil reais).

2)         O segundo maior financiamento nessa área, R$ 1.914.069.218 (um bilhão, 914 milhões, 69 mil e 218 reais), também foi para uma multinacional: a AMBEV, desnacionalizada há oito anos.

3)         O terceiro maior financiamento na área industrial foi para a FIAT: R$ 1.299.537.000 (um bilhão, 299 milhões e 537 mil reais).

4)         O quarto maior, também foi para uma empresa estrangeira: a GVT (Global Village Telecom), que levou R$ 1.184.107.000 (um bilhão,  184 milhões e 107 mil reais).

Nenhuma outra empresa recebeu, em 2011, na área industrial, um financiamento que chegasse a R$ 1 bilhão. Todas as empresas que conseguiram superar essa marca foram multinacionais.

Para resumir o resto: nos empréstimos do BNDES acima de R$ 100 milhões na área industrial, num total de R$ 12.917.728.548 (12 bilhões, 917 milhões, 728 mil e 548 reais), as multinacionais foram contempladas com R$ 9.118.324.318 (nove bilhões, 118 milhões, 324 mil e 318 reais), isto é, as multinacionais levaram 70,58% do valor destinado pelo BNDES aos financiamentos acima de R$ 100 milhões, na área industrial.

Sucintamente, os grupos beneficiados, além dos já mencionados, foram:

1)         O Tereos, monopólio francês do etanol e do açúcar pegou no BNDES R$ 723.186.000 (723 milhões e 186 mil reais), através de três empresas: Guarani (R$ 446.675.000), Companhia Energética São José (R$ 165.147.000) e Usina Vertente (R$ 111.364.000).

2)         A Pirelli levou R$ 442.765.100 (442 milhões, 765 mil e 100 reais).

3)         O Noble, monopólio inglês do agronegócio sediado em Hong Kong, foi contemplado com um empréstimo de R$ 409.012.000 (409 milhões e 12 mil reais).

4)         A Rhodia, hoje pertencente ao Grupo Solvay, sediado na Bélgica, pegou R$ 114.538.000 (114 milhões e 538 mil reais), através da Cogeracão de Energia Elétrica Paraíso.

Apenas para não provocar polêmicas inúteis, não colocamos o GP Investments como empresa estrangeira – embora dificilmente se pode chamar de nacional a esse grupo de especuladores.

O GP Investments, em 2011, levou R$ 1.874.443.350 (um bilhão, 874 milhões, 443 mil e 350 reais) do BNDES, através das Lojas Americanas (R$ 734.748.000 – para o BNDES as Lojas Americanas estão na área industrial), da LBR (R$ 704.431.350) e de uma subsidiária das Americanas, a B2W Companhia Global do Varejo (R$ 435.264.000).

Mesmo sem contar o  GP Investments, as multinacionais ficaram, ressaltamos, com 70,58% do total dos empréstimos acima de R$ 100 milhões do BNDES, destinados à área industrial.

O que resumimos até agora pode ser encontrado nos relatórios do BNDES: “Boletim de Desempenho, 30/04/2012”, “Desembolso do Sistema BNDES – MPME, janeiro-abril 2012”, “Desempenho Setorial do BNDES, 30/04/2012” e “Contratações da área industrial (operações diretas) 01/01/2011 a 31/12/2011”.

Trata-se, também sinteticamente, de jogar dinheiro fora – dinheiro do Tesouro e dos trabalhadores, principais fontes do BNDES. O que vão fazer as filiais de multinacionais com esse dinheiro? Obviamente, enviá-lo para suas matrizes.

Até porque elas não precisam – e não querem – fazer investimentos, exceto aquele mínimo sem o qual uma empresa não existe, pois funcionam com insumos e componentes importados. Não é apenas a questão de que multinacionais não existem para investir no país dos outros, mas para explorar o seu mercado e a sua mão de obra, enviando lucros e importando da matriz, ou de outra seção da mesma empresa, os insumos e bens intermediários, isto é, os componentes que utiliza.

Estruturalmente, seu investimento é o mais baixo possível – mais baixo que empresas nacionais que estivessem em seu lugar, pois as filiais de multinacionais não desenvolvem tecnologia, porque são montadoras de componentes importados; e também não investem para dar um salto na produção, porque sua meta não é vender barato para o conjunto da população, mas vender caro para uma faixa estreita, mais favorecida: elas são monopólios. O exemplo do etanol, onde as multinacionais, ao comprarem usinas brasileiras, paralisaram a expansão até então vertiginosa do setor – inclusive, intencionalmente para elevar os preços – é recente demais para que nós tenhamos de fazer outros comentários.

A política atual do BNDES favorece, portanto, o setor que tende a estagnar o crescimento. Sonegar recursos às empresas nacionais, desviá-los para monopólios estrangeiros, sobretudo quando as matrizes destes estão em crise, é uma excelente forma de contribuir para o atraso do país e rebaixar (ou liquidar) o crescimento. O que, aliás, o sr. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, demonstrou bastante bem no passado. Uma pena que tenha esquecido. 

Diz a nota do BNDES que o resultado do quadrimestre é fenomenal, porque “consultas crescem 37% no primeiro quadrimestre do ano”.

O sr. Coutinho já fez coisa muito melhor na vida que tratar o público como se fosse uma plêiade de imbecis – apresentar as consultas dos empresários em busca de empréstimos do BNDES como um resultado do banco (e altamente positivo!?) está em um nível que, realmente, não esperávamos dele.

Principalmente quando o próprio BNDES nos informa que, entre janeiro e abril, houve “consultas” (isto é, pedidos de financiamento) no valor de R$ 73,841 bilhões, mas só foram aprovados R$ 34,223 bilhões (-28% que no ano passado). Aumentaram os pedidos dos empresários em 37%, mas as aprovações caíram 28% e os desembolsos totais (não somente para a indústria) só cresceram 1% (mais exatamente: 0,8% - cf. “Boletim de Desempenho, 30/04/2012”, item 2, “fases da operação”, pág. 1).

O sr. Coutinho, no entanto, deixou de se preocupar com essas coisas, isto é, com a realidade. Por exemplo, depois de, muito justamente, criticar o crescimento estupidamente baixo durante o governo Fernando Henrique, há algumas semanas, quando saiu o resultado do PIB, declarou: “O crescimento de 2,7% do PIB em 2011 foi muito significativo para o país (…). O resultado colocou o Brasil na sexta posição na economia mundial (…) assegurando mais avanços na inclusão”.

Se ele fosse um botocudo (com todo respeito aos índios), ainda ia. Mas ele não é.

  • Imprimir
  • w"E-mail"
  • Compartilhe esta noticia
  • Orkut
  • FaceBook
  • Twitter

Related Content

CUT RADIO
FNDC Para Expressar a Liberdade Comitê Brasil em defesa das florestas e do desenvolvimento sustentável

Copyright © 2002-2009 CUT Central Única dos Trabalhadores | 3.438 - Affiliated Entities | 7.464.846 - Affiliates | 22.034.145 - Representados
Rua Caetano Pinto nº 575 CEP 03041-000 Brás, São Paulo SP | Telephone (0xx11) 2108 9200 - Fax (0xx11) 2108 9310