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Clipping 01/02/10

Escrito por William Pedreira
01/02/2010

Edição nº 0 segunda, 01 de fevereiro de 2010
Fechamento: 09:19




Edição número 1509 segunda-feira, 01 de fevereiro de 2010

 

 

 

Fechamento: 08h50

 

 

 

 

Veículos Pesquisados:

 

 


Clipping CUT é um trabalho diário de captação de notícias realizado pela equipe da

Secretaria Nacional de Comunicação da CUT. Críticas e sugestões com

Leonardo Severo (leonardo@cut.org.br)

Isaías Dalle (isaias@cut.org.br)

Paula Brandão (paula.imprensa@cut.org.br)

Luiz Carvalho (luiz@cut.org.br)

William Pedreira (estagio.imprensa@cut.org.br)

Secretária de Comunicação: Rosane Bertotti (rosanebertotti@cut.org.br)





O Estado de S.Paulo



Demagogia pseudotrabalhista (Editorial)

Como herança da tumultuada gestão do ex-ministro Roberto Mangabeira Unger na Secretaria de Assuntos Estratégicos, tornou-se conhecido no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e no bojo de um pacote de propostas trabalhistas, anteprojeto de lei que obriga a distribuição de 5% dos lucros líquidos das empresas aos empregados. Como tem acontecido no governo Lula, as discussões que se transformaram no documento de 67 páginas, intitulado Reconstrução das Relações Capital-Trabalho, foram feitas em ambiente fechado e distante da opinião pública. A bem da verdade, Mangabeira Unger afirmou ter consultado centrais sindicais, entre as quais CUT, Força Sindical, UGT, CGTB, NCST e CTB, delas não tendo recebido aceitação maciça. Mas não foram consultadas entidades empresariais, por motivos óbvios também interessadas no assunto.

Como achou melhor voltar a dar aulas na Universidade Harvard, o polêmico ex-ministro deixou o legado de sua criatividade trabalhista a alguém que andava precisando de qualquer ideia nova para conquistar um mínimo de visibilidade político-eleitoral. Foi assim que transferiu a paternidade do assunto ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que encampou o texto e organizou um grupo de trabalho para tratar da questão. Como não poderia deixar de ser, o ministro da Justiça, Tarso Genro, que nunca se faz de rogado para pegar carona nos temas polêmicos, por menos que lhes digam respeito, acabou dando arcabouço jurídico ao anteprojeto, que ainda deve ser submetido à ministra-chefe da Casa Civil, antes de ir para o Congresso Nacional.

A presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas, Ana Amélia Camargo, em entrevista publicada quinta-feira no Estado, resume as críticas que têm surgido sobre essa proposta de participação nos lucros: "É uma medida autoritária que só servirá para diminuir o emprego." Lembra ela que a legislação já existente sobre a participação dos empregados nos lucros das empresas é boa e está sendo aplicada cada vez mais. "O maior ganho da lei (atual) é que a participação nos lucros é acordada diretamente entre funcionários e empregadores. A nova proposta transforma uma legislação adequada, que prioriza a negociação, em uma imposição estatal. Sem dúvida é uma medida eleitoreira e populista."

Aqueles que consideram que a participação dos empregados no lucro das empresas é um avanço salutar veem na imposição do porcentual compulsório, independentemente de quaisquer negociações entre empresas e trabalhadores, um viés populista e oportunista. Até porque com um porcentual fixo e obrigatório se anula um dos objetivos desse tipo de medida, que é aumentar a produtividade das empresas. E há quem considere que, se é justo que os empregados tenham participação fixa nos lucros líquidos das empresas, também será justo que arquem com parte dos prejuízos, eventualmente apurados nos balanços das empresas.

Observa, com oportunidade, o ex-ministro Almir Pazzianotto Pinto: "Lucro, por definição, é o resultado pecuniário eventualmente obtido pelo exercício da atividade econômica. (...) Uma diferença entre empregador e empregado consiste em que recaem sobre o primeiro os riscos do negócio. Quando entra em crise, o que não é comum, arca ele com os prejuízos. Quanto ao empregado, não importa a situação em que o patrão se encontre, a remuneração do trabalho é sagrada, garantida pela lei, e goza de preferência frente a outras dívidas."

E há um ponto constitucional importante, salientado pelo ministro Pazzianotto: a Constituição de 88 foi prudente ao prescrever "participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei". Ao desvincular a participação nos lucros ou resultados da remuneração a Constituição deixou nítido que não se trata de parcela salarial, mas de expectativa de direito, "com que abriu espaço para a Lei nº 10.101/2000, cujos bons resultados somente não são melhores porque muitos sindicatos confundem negociação com imposição respaldada na truculência".

Considerações jurídico-constitucionais à parte, o melhor será o governo sepultar essa ideia no seu já atulhado baú de iniciativas demagógicas.


Eleições determinam escolha de líderes no Congresso
Costura de alianças políticas e afinidades com pré-candidatos guiam definição dos novos comandos partidários

Christiane Samarco (Nacional)

A proximidade da eleição presidencial fez com que o Palácio do Planalto e os partidos aliados e de oposição adotassem a mesma estratégia para montar seus times no Congresso. A escolha dos novos líderes, que serão oficializados amanhã, na reabertura dos trabalhos do Legislativo, foi fruto do "ajuste eleitoral" nos campos governista e de oposição. Na Câmara, a cúpula do DEM optou por um nome afinado com a candidatura presidencial do governador tucano de São Paulo, José Serra, enquanto o governo buscou uma alternativa com melhor trânsito no PMDB.

O novo líder do DEM na Câmara será o deputado Paulo Bornhausen (SC), filho do ex-senador Jorge Bornhausen, escolhido por consenso na bancada e com o apoio da cúpula partidária. Depois da troca pública de farpas entre o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e o governador Serra, a escolha do filho do ex-senador para liderar a bancada sinaliza a proximidade do candidato tucano. Paulo segue o script do pai, que conversa semanalmente com Serra e foi peça fundamental no acordo de paz entre o DEM e PSDB, depois da disputa pela prefeitura de São Paulo.

Também não por acaso, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deixa o comando da bancada petista para assumir a liderança do governo na Câmara. Em tempos de costura da aliança nacional com o PMDB para eleger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) presidente, o governo optou por desalojar o líder gaúcho Henrique Fontana (PT). Trocou o deputado de um Estado onde PT e PMDB vivem às turras, pelo paulista Vaccarezza, que integra a lista dos "queridinhos do PMDB" no PT, por seu diálogo fácil com a cúpula peemedebista.

Governo e oposição querem afinar seus times de líderes no Congresso com o candidato a presidente. Encarregada de ler a mensagem de Lula ao Congresso, a ministra Dilma é considerada presença certa na sessão solene que marcará o início do ano legislativo, às 11h30 de amanhã. Logo na chegada, será recepcionada por Vaccarezza e seu provável sucessor na liderança do PT, o deputado Fernando Ferro (PE). Assim como nos partidos de oposição, não deve haver disputa pelo posto de líder petista este ano.

O líder do PSDB na Câmara será o deputado João Almeida (BA) e, ao menos até agora, Ferro é candidato único e deve ser oficialmente escolhido amanhã à tarde, com o apoio da cúpula do partido e da bancada.

Será a primeira visita da ministra e candidata ao Congresso depois de ela assumir publicamente a candidatura em solenidades Brasil afora. Mas ninguém teme qualquer manifestação hostil dos adversários da candidata petista. A solenidade tem rito próprio em que a leitura da mensagem presidencial não admite apartes dos líderes nem debate no plenário.


Governo cria 'orçamento paralelo'

Renée Pereira (Economia)

A dificuldade do governo federal para gastar o dinheiro público criou um caos orçamentário no Brasil. Além dos recursos autorizados e não gastos, há uma montanha de despesas cujo pagamento está sendo adiado ano após ano a ponto de virar um orçamento paralelo. São os chamados restos a pagar, despesas empenhadas (compromisso de que há crédito para a obra) que não receberam desembolso do Tesouro e foram transferidas para o ano seguinte.

Entre 2006 e janeiro de 2010, essa conta quase quadruplicou (290%). Saltou de R$ 12,8 bilhões para cerca de R$ 50 bilhões, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). É como se a União tivesse, em todo início de ano, um orçamento a mais para gastar.

O problema é que o pagamento dos restos de exercícios anteriores concorre diretamente com a execução do orçamento anual. Isso porque, além da falta de capacidade para gastar, o governo precisa cumprir metas de superávit fiscal. Quitar as duas coisas poderia afetar as contas públicas, conclui o Tribunal de Contas da União (TCU), que já recomendou mudanças à Secretaria do Tesouro Nacional.

"O orçamento anual virou peça de ficção", diz o economista Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas. Ele lembra que tudo começou no fim da década de 90 como estratégia para cumprir as metas de superávit fiscal. Para preservar os limites estabelecidos, o governo passou a empenhar e pagar os valores apenas no ano seguinte. Mas, como o dinheiro para investimento era escasso, o governo não tinha problemas.

Com o avanço da economia e aumento da arrecadação, o orçamento cresceu. Foi aí que os gargalos da gestão pública vieram à tona. Com a maior disponibilidade de recursos, a estrutura do governo ficou defasada e insuficiente para gastar tudo no próprio exercício, observa o especialista em contas públicas Raul Velloso. "Agora o problema não é mais a escassez de dinheiro, mas a incapacidade de gastar os recursos." Em 2008, o Ministério dos Transportes inscreveu em restos a pagar 75,8% do montante autorizado para investimento no ano.

Em estudo feito a pedido do Estado, Velloso mostra que os valores de conta a pagar nos últimos anos têm superado com folga os investimentos efetivamente executados dentro do ano. Segundo ele, em 2009 foram feitos investimentos da ordem de R$ 34 bilhões enquanto os restos a pagar do ano somaram R$ 35,3 bilhões. Em outra comparação, o estudo mostra que o valor pago em 2009 representou 88% dos restos de 2008. Isso quer dizer que o governo gastou apenas R$ 4 bilhões do exercício de 2009.


Câmara pode votar dois projetos do Pré-Sal esta semana
Ideia é começar com leis sobre capitalização da Petrobrás e sobre criação do Fundo Social

Renato Andrade (Economia)

Os projetos de lei sobre a capitalização da Petrobrás e a criação do Fundo Social, que fazem parte do arcabouço regulatório do pré-sal, podem ser os primeiros a serem apreciados pelos deputados no retorno dos trabalhos do Congresso esta semana.

A ideia é evitar que a retomada das discussões sobre o tema seja feita pelo projeto que define o novo modelo de exploração e estabelece a divisão de receitas obtidas com a cobrança de royalties, que provocou um embate entre os deputados em dezembro.

A proposta ainda tem que ser discutida pelos líderes dos partidos. "A ideia é não votar o modelo de partilha e começar pelos outros dois projetos", afirmou o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos principais articuladores da bancada fluminense nas questões sobre o pré-sal. Segundo ele, a proposta foi apresentada ao novo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP) que, em princípio, teria achado "boa" a iniciativa.

Oficialmente, dos quatro projetos encaminhados pelo governo em setembro para a Câmara, apenas um foi aprovado, o que cria a Petro-Sal, estatal que será responsável pela gestão dos novos contratos.

O projeto mais importante, que estabelece o mecanismo de partilha como novo modelo exploratório, teve seu texto base aprovado no início de dezembro, mas a conclusão da votação ficou travada por conta de uma emenda, de autoria dos deputados Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) e Humberto Souto (PPS-MG).

O problema desta única pendência é que ela propõe uma divisão igualitária entre todos os Estados e municípios das receitas que serão obtidas com a cobrança de royalties - uma compensação devida pelas empresas que exploram petróleo - tanto nas áreas que ainda serão exploradas, quanto nos campos do pré-sal que já foram licitados. Se aprovada, a proposta alteraria todo o modelo previsto no texto do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), relator da matéria, e provocaria perdas significativas para os cofres do Rio de Janeiro e Espírito Santo, maiores produtores de petróleo do País.

ARTICULAÇÕES
O embate sobre a questão tomou conta das últimas sessões da Câmara no ano passado. Adiar a conclusão da votação desse projeto abriria mais tempo para que os líderes governistas articulassem apoio dentro da base para derrubar a emenda. Para o deputado Rodrigo Rollemberg (DF), líder do PSB, o governo deveria aproveitar as duas primeiras semanas de fevereiro para fazer uma "nova rodada de negociações".

A possibilidade de uma derrota do governo na votação da emenda de Ibsen e Souto é concreta, considerando o atrativo que a proposta tem para representantes de Estados que recebem pouco ou quase nada em termos de royalties de petróleo atualmente.

Rollemberg lembra que apesar do "conceito correto" da medida, a formulação adotada foi "inadequada" e pode acabar prejudicando os Estados não produtores, porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode vetar a proposta e, com isso, manter a distribuição de royalties como é feita hoje, o que representa uma concentração de recursos na mão dos produtores.

Eduardo Cunha vai mais além e argumenta que se o destaque for aprovado poderá ir à Justiça.


Bancos preveem juro estável para crédito imobiliário em 2010
Segundo executivos, provável alta do juro básico da economia (Selic) não influenciará custo dos financiamentos

Yolanda Fordelone (Economia)

Enquanto o mercado financeiro discute quando e quanto o juro básico deve subir neste ano, no imobiliário o discurso é de que as taxas dos financiamentos não vão acompanhar a trajetória de alta da Selic. O principal argumento dos bancos é de que a maior parte dos recursos do crédito imobiliário é captada por meio da poupança, investimento que não sofre grandes alterações de rentabilidade quando o juro básico é modificado.

Especialistas esperam que a Selic encerre 2010 em 11,25% ao ano (ante 8,75% hoje), de acordo com o mais recente boletim Focus do Banco Central (BC), resultado de uma pesquisa com centenas de instituições financeiras e consultorias.

"Os recursos do crédito imobiliário vêm da poupança. Mesmo com a Selic tendo um ajuste, não deve haver alteração nas taxas praticadas", disse o superintendente executivo de crédito imobiliário do Bradesco, Claudio Borges. Por lei, os bancos são obrigados a direcionar 65% do dinheiro da poupança a empréstimos habitacionais.

Independentemente do novo nível da Selic, a caderneta paga ao investidor 0,5% ao mês mais Taxa Referencial (TR) - calculada a partir da taxa média dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A rentabilidade estável da caderneta faz com que o custo dos bancos ao captar o dinheiro para empréstimos imobiliários não suba caso a Selic seja elevada.

O juro do financiamento varia entre 8% e 10% ao ano mais TR. "Parte do cálculo da TR contém a Selic. Se o juro sobe, a TR deve subir também, mas a parte fixa do financiamento não deve ser alterada", afirmou o diretor de empréstimos e financiamentos do Banco do Brasil, Nilson Martiniano. A TR tem um custo muito baixo para o mutuário. Nos últimos meses, tem ficado abaixo de 0,1% ao mês.

Segundo os bancos, não deve ocorrer algo parecido com o visto em outubro de 2008, quando as instituições aumentaram o juro cobrado no empréstimo imobiliário. Em alguns casos, a taxa chegou a 12% ao ano mais TR. "Não foi somente a Selic que fez o juro do crédito subir no passado. Foi uma questão de mercado", lembra o diretor de crédito imobiliário do Santander, José Roberto Machado Filho. Na época, havia o temor de que a inadimplência subiria.

RECORDE
O início de ano fraco não impediu que 2009 batesse recorde de financiamento em valor e em unidades financiadas. Foram concedidos R$ 34 bilhões em empréstimos com dinheiro da poupança. No total, 302,7 mil unidades foram financiadas, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário Poupança (Abecip).

O aumento da oferta de crédito se explica, em parte, pela captação da poupança. Os depósitos bateram recorde - R$ 300 bilhões - em 2009. "No primeiro semestre, poderia dizer que inexistiu lançamento de imóveis, pois a crise fez com que as construtoras não tomassem mais empréstimos para construir e tentassem vender o estoque existente", disse o diretor de crédito imobiliário do HSBC, Antonio Barbosa.

Segundo especialistas, a confiança da pessoa física na economia aumentou agora. "O comprador ficou receoso em assumir dívidas na crise", disse o diretor de crédito imobiliário do Itaú Unibanco, Luiz França. "Em dezembro, emprestamos R$ 2,39 bilhões à pessoa física. Houve uma volta clara ao financiamento de novos e usados."

A expectativa é de que o crédito avance neste ano. "Esperamos fechar 2010 com R$ 3,7 bilhões em crédito imobiliário", disse o gerente-executivo de empréstimos do BB, Sérgio Augusto Kurovski, que emprestou R$ 600 milhões em 2009. A Caixa Econômica Federal, líder do mercado, acredita que o crédito alcançará R$ 50 bilhões, ante R$ 47 bilhões de 2009.

"O crédito imobiliário ainda representa muito pouco do PIB", frisa Barbosa, do HSBC. Segundo a consultoria Accenture, no Brasil, esse porcentual é de 2,1%, contra 65% nos EUA e 9% no México.




Folha de S.Paulo


Lula dobra criação de cargos de confiança no 2º mandato
Média mensal de novos postos salta de 23,8 no primeiro período para 54 desde 2007

Oposição diz que o aumento demonstra partidarização da gestão; Planejamento afirma que atende à reorganização da máquina pública federal

 
Fernando Barros Mello (Brasil)

O governo Luiz Inácio Lula da Silva dobrou o ritmo da criação de cargos comissionados da administração federal no segundo mandato. O número médio mensal de postos criados aumentou de 23,8 nos quatro primeiros anos do governo para 54 a partir de 2007. Essas vagas são muitas vezes destinadas a apadrinhados políticos.


Levantamento feito em medidas provisórias e projetos de lei mostra que foram criados 4.225 cargos de confiança entre 2007 e 2009. Considerando os cargos extintos no mesmo período, o saldo é de 1.946, contra 1.144 no período anterior.


No segundo mandato, foram criados 395 cargos por MPs e 3.830 por projetos de lei. No mesmo período, foram criados 84.672 cargos efetivos, com exigência de concurso.


Em 2007, o Ministério do Planejamento enviou à Câmara a nota informativa 304/07, que detalhou ano a ano a situação de cargos de confiança desde 1994. O documento mostra que Lula herdou do antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), 19.943 cargos de livre nomeação.


Após redução em 2003, houve grande aumento no ano seguinte, chegando a 21.404. Em 2005 e 2006, novas quedas. Ao final do primeiro mandato havia 21.087 cargos de confiança. Agora, são 23 mil.


Os cargos comissionados são conhecidos pelas siglas DAS (Direção e Assessoramento Superior) e NE (Natureza Especial) e destinados a funções de chefia ou postos estratégicos.


O Ministério do Planejamento afirma que a criação desses cargos se dá de maneira pulverizada e para atender reorganizações internas de diversos órgãos do governo.


O número de cargos de confiança no Brasil é um dos mais altos do planeta. Nos Estados Unidos, no início da gestão Barack Obama, em 2009, havia cerca de 9.000 dirigentes desse tipo e 600 deles precisavam de aprovação do Senado.


A oposição diz que o aumento nesse tipo de posto é uma demonstração de partidarização do governo. "Isso é o governo do PT. É a certidão do aparelhamento do Estado", afirma o líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA). "A despeito de tantas nomeações, não se observa melhoria no serviço público e há muitas áreas que carecem de pessoal, como meio ambiente", complementa.


O PT calcula que cerca de 5.000 cargos de confiança federais são ocupados por filiados. Mas resolução do Tribunal Superior Eleitoral de 2006 proíbe contribuição partidária de parte dos ocupantes desses cargos.


"Por 4 votos a 3, o TSE disse que os cargos que tinham algum tipo de responsabilidade em ordenar despesas não poderiam fazer doações. O PT perdeu por mês R$ 200 mil reais de arrecadação e, na época, tínhamos um aumento de contribuição individual", diz Paulo Ferreira, tesoureiro do PT.


Em 2002, as contribuições dos filiados eram 1,9% da arrecadação do PT. A partir de 2003, com a vitória de Lula, a participação dos filiados cresceu, chegando a R$ 35,6 milhões (8,67% do total) em 2005.


A participação recuou a R$ 2,88 milhões em 2006, ano da reeleição de Lula, e continuou caindo. Dos R$ 93 milhões captados em 2008, só R$ 2 milhões (2,15%) saíram de filiados, contra R$ 60,3 milhões (64%) de empresas.



Sindicalistas e petistas ocupam cargos mais altos (Brasil)

Os mais altos cargos de confiança do governo federal são ocupados principalmente por sindicalistas e petistas.

Considerando só os cargos DAS 5 e 6, que são justamente o topo da carreira no serviço público, cerca de 25% dos ocupantes são filiados a algum partido, sendo que 80% desses funcionários são petistas. No primeiro mandato de Lula, 45% dos DAS 5 e 6 eram sindicalizados, número que variou para 42,8% no segundo mandato.

Os dados fazem parte de uma pesquisa comandada pela cientista política Maria Celina D'Araújo, professora da PUC-RJ. Ela publicou recentemente o livro "A Elite Dirigente do Governo Lula". A maior parte dos sindicalistas que foram nomeados é de professores (19,6%) e bancários (10,1%).


Ocupantes dos cargos de confiança pertenceram a centrais sindicais, especialmente à CUT (Central Única dos Trabalhadores): no primeiro governo Lula, 10,6% eram de centrais; no segundo, são 12,3%.


No primeiro mandato do governo Lula, apenas 36,7% dos filiados ao PT em cargos de confiança já haviam ocupado cargos do tipo anteriormente, no segundo, esse número saltou para 82,6%. O motivo foi a permanência nos cargos.


Segundo Maria Celina, "há fortes pressões para que os cargos de DAS possam ser usados como moeda política, e que essas pressões vêm também do Congresso e dos partidos, e não apenas do Executivo".


Ela diz, no entanto, que não se deve tratar de forma "dicotômica e excludente os técnicos-burocratas e os políticos", já que muitas vezes as nomeações políticas são destinadas a técnicos. Segundo a pesquisa, a maior parte dos cargos de confiança é ocupada por pessoas que têm graduação universitária e pós-graduação.


Mesmo assim, a cientista política vê a necessidade de ajustes, dizendo que "o governo, pelo menos nos dois mandatos de Lula, reúne fortes condições de adaptar a máquina do Estado aos interesses de seu partido".


Ela critica decreto de 2003, que concentrou todas as nomeações de cargos de confiança na Casa Civil, comandada então por José Dirceu.


A professora diz que a expressiva presença de sindicalistas no governo é resultado de três processos: a incorporação dos trabalhadores e dos sindicatos como atores do sistema político; a intensa sindicalização no setor público a partir dos anos 1990; e a eleição de um ex-operário sindicalista para presidente em 2002.


Por isso, a cientista política conclui que essa presença é sinal de "maiores oportunidades para os grupos sociais demandarem e participarem das políticas públicas e até do governo", mas ressalva para o risco de uma "uma cooptação do movimento social pelo Estado".



Eleição faz governo evitar pautas polêmicas
Congresso deve deixar fora de votação temas como descriminalização do aborto e união entre pessoas de mesmo sexo

Aprovação de projetos sobre pré-sal é prioridade em 2010, mas orientação é de não inclusão de propostas que acirrem disputas estaduais


Maria Clara Cabral e Johanna Nublat (Brasil)

Em ano de eleição, o governo pretende deixar de fora da pauta do Congresso assuntos polêmicos. Como na prática deputados e senadores contam com apenas seis meses de trabalho legislativo -depois de junho eles passam a se focar em suas campanhas nos Estados-, a prioridade é concentrar esforços na aprovação dos quatro projetos que definem a regulação e exploração do pré-sal.


A Câmara volta do recesso amanhã já debruçada na conclusão da votação do projeto de lei que estabelece o modelo de partilha do pré-sal. Depois, o texto ainda tem que seguir para o Senado.


Como há briga sobre o assunto entre os Estados produtores e não produtores de petróleo, a orientação do governo é que os líderes da base não pautem novas propostas que possam trazer grandes problemas.


"Se conseguirmos concluir a votação dos quatro projetos do pré-sal neste primeiro semestre nas duas Casas, já está ótimo", disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), novo líder do governo na Câmara.


Caso consigam liquidar o assunto, os congressistas devem trabalhar temas que já estavam sendo tratados no Congresso. A atualização da lei de licitações, por exemplo, é importante porque pode ajudar no andamento das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), um dos pontos de sustentação da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.


As outras propostas listadas pelo gabinete de Relações Institucionais e por líderes da base aliada a Lula são o projeto que cria o cadastro positivo, o que dá nova estrutura para o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), o que define a competência dos entes federados em matéria ambiental e o que cria o "Fundo de Catástrofe" para a produção rural -constituído por consórcio privado e que poderá contar com subvenção do governo.


Chegando ao Congresso, a consolidação das leis sociais também será prioridade.

Algumas outras propostas, que já estão em votação na Câmara e no Senado, devem ser concluídas, como a emenda constitucional que inclui a alimentação como direito social e a emenda que agiliza o divórcio.


Se conseguir votar tudo isso no semestre, o governo já se considera satisfeito. Ou seja, temas listados no Programa Nacional de Direitos Humanos, como a descriminalização do aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo não devem avançar muito no Congresso.


A votação do projeto de lei que institui 40 horas semanais para os trabalhadores, por exemplo, não deve acontecer, principalmente para não criar um embate com os empresários em ano de eleição.


Já a política de reajuste dos aposentados, muito discutida no ano passado, foi tratada em uma medida provisória enviada no ano passado e não deve sofrer grandes alterações.


"Assuntos polêmicos que tenham grande complexidade não devem entrar [na pauta], não temos condições de antecipar [esses assuntos]", afirmou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).


Mesmo se quisesse, pelo menos no Senado, o governo começaria o ano já com dificuldades de votar temas polêmicos, principalmente devido ao alto número de medidas provisórias editadas. São três que estão na Casa, duas trancando a pauta -com prioridade de votação. A outra começa a trancar dia 17.


Como lá o presidente José Sarney (PMDB-AP) preferiu ainda não adotar a mesma regra do presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP) -que liberou as votações mesmo com medidas provisórias em sessões extraordinárias-, a dificuldade para votar as matérias é maior.


Na Câmara, nove medidas provisórias já chegaram. Elas tratam de política do salário mínimo até a liberação de recursos para cidades afetadas pelas enchentes.



Semana terá ata da reunião do Copom e IPCA (Dinheiro)
Nos EUA, dados do emprego serão conhecidos na sexta

A semana promete ser bastante intensa no mercado financeiro. Uma ampla lista de relevantes eventos econômicos, tanto no Brasil quanto no exterior, preenche a agenda dos próximos dias.


No Brasil, o grande tópico da semana será a apresentação da ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em que foi decidida a manutenção da taxa básica Selic em 8,75% anuais.


Na ata, a ser conhecida na manhã de quinta-feira, analistas e investidores esperam encontrar sinais sobre quando os juros começarão a ser elevados no país. Há quem projete alta da Selic já a partir da reunião do Copom de março. Para o fim do ano, a expectativa do mercado é que a Selic esteja em 11,25%.


Antes disso, o IBGE vai apresentar, amanhã, o resultado da produção industrial de dezembro. O mercado projeta queda de 0,4% no indicador.


Outro dia carregado na agenda brasileira será a sexta, quando ocorrerá a apresentação dos índices de inflação IGP-DI e IPCA. Para o IPCA, espera-se uma alta de 0,70% em janeiro.



"A leitura da ata do Copom será, como de costume, de grande importância para se conhecer a visão atual do Banco Central a respeito do cenário prospectivo para a inflação. A partir desse texto, poderemos avaliar com maiores subsídios os prováveis próximos passos da política monetária", diz Silvio Campos Neto, economista-chefe do banco Schahin.


No exterior, também não faltarão temas para serem analisados pelos agentes de mercado nos próximos dias.


Hoje, nos EUA, serão apresentados os números dos gastos e da renda do consumidor americano em dezembro. Esses dados são importantes sinalizadores do ritmo em que anda a maior economia do mundo. Ainda hoje, vai ser divulgada a pesquisa do instituto privado ISM sobre o desempenho da indústria americana em janeiro.


Na quarta-feira, o destaque nos EUA fica com a pesquisa feita pela consultoria ADP que mostrará o que ocorreu com os postos de trabalho no setor privado norte-americano no primeiro mês do ano.


Na quinta-feira, as atenções se voltam para a Europa, onde ocorrerão as reuniões de política monetária do BCE (Banco Central Europeu) e do BoE (sigla em inglês do BC britânico).


A expectativa é a de manutenção das taxas básicas de juros, em 1% anual pelo BCE e em 0,50% pelo BC britânico.


Desemprego alto

No último dia da semana, a agenda norte-americana retorna para o centro das atenções. Na sexta-feira, será conhecido nos EUA o desempenho do crédito ao consumidor em dezembro. Vão sair também os dados do mercado de trabalho no país. A expectativa dos analistas é a de que a taxa de desemprego nos EUA tenha se mantido em 10%.

O desemprego é um dos pontos mais delicados da gestão do presidente Barack Obama. Em dezembro passado, Obama anunciou várias medidas destinadas a combater o desemprego no país. Dentre as medidas anunciadas pelo governo americano estão cortes de impostos para as pequenas empresas e incentivo para as obras de infraestrutura.


Em outubro do ano passado, o nível de desemprego nos EUA alcançou os 10,2%, sendo a mais elevada taxa já registrada desde abril de 1983.


Na quinta-feira, saem nos EUA dados relativos aos novos pedidos de seguro-desemprego e ao custo unitário da mão de obra no país. A agenda desse dia ainda traz números das encomendas feitas à indústria, além de dados sobre a produtividade.



Davos termina dividido sobre regulação
Bancos e autoridades voltam a se desentender sobre medidas para limitar abusos do setor financeiro

Maria Cristina Frias (Dinheiro)

O Fórum Econômico Mundial encerrou ontem sua 40ª edição com expectativas ainda sombrias para a recuperação econômica em muitos países desenvolvidos e a de que os bancos não vão escapar de uma nova regulação mais rigorosa.


O diálogo entre representantes de grandes bancos privados e autoridades americana e francesa, horas antes da festa de despedida, ilustra o tom do encontro em Davos (Suíça).


Banqueiros reclamavam de que governos estão adotando medidas idiotas e ineficientes nos EUA e na França.


À certa altura, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, perdeu um pouco a paciência e retrucou que, se os bancos não tivessem feito o que fizeram, talvez os governos não tivessem sido obrigados a tomar "medidas idiotas".


Lawrence Summers, diretor do National Economic Council e assessor do presidente dos EUA, Barack Obama, por sua vez, disse que os bancos perderam credibilidade para fazer essas afirmações e que teriam que aceitar novas regras.


As propostas de Obama para limitar a atuação dos bancos e o discurso do presidente francês Nicolas Sarkozy na quarta-feira foram o foco das discussões.


Apesar da chiadeira, os banqueiros internacionais sabem que algo terá de mudar diante da pressão política crescente nos EUA e na Europa por normas que encolham os bancos e restrinjam sua atuação para evitar o risco de outras crises.


Se a mudança será inevitável, os banqueiros pleiteiam ao menos que ela não fique ao sabor de decisões individuais de alguns países, como as de Obama, que, reservadamente, muitos consideram, ao menos em parte, populistas, como disse um deles à Folha.


Houve várias manifestações para que as novas regras surjam de uma coordenação global, como foi decidido pelo G20 em abril de 2009, que delegou ao Comitê de Estabilidade Financeira (FSB) e ao Comitê de Basileia a elaboração de uma reforma financeira.


Josef Ackermann, presidente do Deutsche Bank, disse que há uma consciência de que é preciso fazer algo para restaurar a confiança.


"Se perdermos o apoio da sociedade, não conseguiremos atingir nossos objetivos corporativos. Mas é necessária uma harmonização em nível mundial das regulamentações", afirmou. "No fim, é um sistema interdependente."


O presidente do BCE (Banco Central Europeu), o francês Jean-Claude Trichet, afirmou que se deve atuar com regras mundiais para tratar de problemas mundiais, "ou avançaremos para uma catástrofe".


"Temo que esqueçamos de uma lição essencial da crise, que é a coordenação. Tenho medo de que não nos encaminhemos nessa direção", disse.


Mas nem todos serão tão afetados. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, que participa dos comitês encarregados de discutir a nova regulamentação, disse que Brasil e Canadá são países que não tiveram problemas com seus bancos durante a crise por já terem adotado regras prudenciais rigorosas, muitas das quais estão sendo discutidas agora por outros países.





Valor Econômico


Amazônia será a região mais afetada no futuro, prevê estudo

O aumento da temperatura do planeta vai gerar um crescimento na frequência de raios. No Brasil, a Amazônia, no futuro, será a região mais afetada pelos raios, pois deverá registrar, até o fim do século, o maior aumento de temperatura do país, entre 4 e 8 Celsius. Outro fator que contribui para esse cenário é a previsão de uma diminuição na umidade da região, com a transformação da floresta em cerrado, o que favorece ainda mais a incidência de raios.

As afirmações fazem parte de estudo realizado pelo pesquisador Osmar Pinto Júnior, do Inpe, publicado no livro "Lightning in the Tropics: From a Source of Fire to a Monitoring System of Climatic Changes" (Os Raios nos Trópicos: de Fonte de Fogo a Um Sistema de Monitoramento de Mudanças Climáticas), lançado em novembro do ano passado, nos Estados Unidos, pela Nova Science Publishers, de Nova York.

As observações feitas por satélite e monitoradas pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Inpe, indicam um aumento de 18% na incidência de descargas atmosféricas nos últimos dez anos, e a tendência é que ocorra um acréscimo ainda maior nas próximas décadas. "A tendência global de crescimento na frequência de raios ocorrerá fundamentalmente devido ao aumento de temperatura provocado pela maior concentração de gases- estufa na atmosfera."

Os estudos sobre as relações entre raios e aquecimento global também serão intensificados a partir deste ano com a transferência do grupo de pesquisadores do Elat para o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), que desenvolve pesquisas na área de mudanças ambientais globais. "Este novo centro precisa reunir pesquisadores de várias áreas e buscar os cruzamentos interdisciplinares que revelam os aspectos mais importantes das mudanças no ambiente global", afirma o chefe do CCST, Carlos Nobre.

Os impactos causados pelos raios no ambiente e na vida dos brasileiros também estará sendo retratado, em breve, em um documentário, que está sendo produzido por Pinto Júnior. "Estamos finalizando o levantamento das informações históricas e devemos começar as filmagens em junho deste ano." A estreia está prevista para julho de 2011.


 

Jornal do Comércio


Para Grzybowski, FSM influenciou debate econômico da Suíça

Guilherme Kolling

Integrante do núcleo fundador do Fórum Social Mundial (FSM), o sociólogo Cândido Grzybowski avalia que o encontro contribuiu para alterar a agenda da política internacional. Cita até mesmo o Fórum Econômico Mundial, de Davos, evento ao qual o FSM surgiu como contraponto e que, depois do encontro de Porto Alegre, passou a incluir na sua pauta temas como pobreza, que antes eram ignorados.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Grzybowski avalia os dez anos do FSM - citando a troca de informações e a criação de redes internacionais de organizações como grandes frutos -, projeta o futuro do Fórum e levanta os desafios do movimento para colocar em prática suas ações.

Jornal do Comércio - Qual sua avaliação do FSM?
Cândido Grzybowski - Surgimos há dez anos contra a arrogância do pensamento único, o Consenso de Washington, a ideia de tudo pelo mercado, de que o pobre, no fundo, é um não bem-sucedido, o responsável pela sua pobreza - ou seja, não é uma questão de injustiça social, mas falta de competência. Imagina o que isso significa em termos de valores e, sobretudo, de não fazer sentido a solidariedade: o que passa a ter sentido é se preparar para a vida. O discurso era de que não existia alternativa ao mercado. Havia certo desânimo e houve uma reação contra isso.

JC - Que levou ao FSM...
Grzybowski - No final de janeiro de 2000, Oded Grajew (do Instituto Ethos) e Francisco Whitaker (da Comissão Brasileira Justiça e Paz) chegaram de Paris, logo depois do Fórum de Davos. E o final de 1999 e o início de 2000 foi um período movimentado, teve manifestações contra a OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle (EUA), o presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional) havia levado uma torta na cara. Daí, ao voltar, Oded e Chico tiveram a ideia: se tem o Fórum Econômico, por que a gente não faz o Fórum Social Mundial? E por que não em Porto Alegre, onde tem Orçamento Participativo. Fizemos a primeira reunião em fevereiro de 2000.

JC - A primeira edição já saiu em janeiro de 2001.
Grzybowski - Aprendi com o Betinho que essas coisas a gente faz no ato. No dia seguinte já me reuni com a Fundação Ford, que se comprometeu com US$ 100 mil, depois, obtivemos US$ 300 mil de uma entidade que também financiava o Ibase.

JC - Mas formou-se um núcleo de organizações do FSM.
Grzybowski - Depois de diversas reuniões entre as entidades, formamos um Comitê Organizador do FSM - Abong (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais), ATTAC (Associação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), CBJP (Comissão Brasileira Justiça e Paz), Cives (Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania), CUT (Central Única dos Trabalhadores), Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Em agosto de 2000, em Genebra (Suíça), houve uma reunião de avaliação da Conferência de Desenvolvimento Social de Copenhague (Dinamarca). E lá, o (então vice-governador do Rio Grande do Sul) Miguel Rossetto (PT) anunciou a ideia do FSM em Porto Alegre. A divulgação era nesses eventos e na internet.

JC - Supreendeu o público da primeira edição?
Grzybowski - Viemos na Pucrs em maio para olhar o Centro de Convenções e achamos o espaço mais que suficiente, esperávamos no máximo 6 mil pessoas. Mas vieram 20 mil. E nem havia projeto de fazer outro Fórum no ano seguinte, a ideia começou no próprio encontro. Entre 2001 e 2002 criamos a Carta de Princípios - sobre quem poderia participar, como seria -, e surge a ideia do Conselho Internacional, com as principais redes de organizações que vieram no primeiro FSM.

JC - Qual a contribuição do Fórum para a agenda global?
Grzybowski - Primeiro, mudou a agenda de Davos, dos ideólogos do mercado neoliberal. Eles têm um poder de irradiação enorme, todos os chefões da mídia que controlam o grosso da comunicação no mundo estão lá. E tem mais de 200 megaempresas, das quais 100 são maiores do que muitos países. Bem, eles queriam mercantilizar tudo - a vida, as relações, não tinha outra saída. O que aconteceu em 2002? Inseriram o debate sobre a pobreza. Começaram a convidar ativistas, celebridades que defendem causas, como o Bono Vox. Chamaram agora o (presidente) Lula para ser homenageado. E até declararam que é incontornável a questão da injustiça social. Esse é o nosso discurso! Antes, eles achavam tudo isso um absurdo.

JC - O Fórum conseguiu materializar a ideia de uma alternativa?
Grzybowski - O slogan Um Outro Mundo é Possível surgiu para dar esperança, fazer sonhar. Isso faz a diferença. Se você não acredita que um outro mundo é possível, não vai a lugar nenhum. Então, o clima que havia antes era de mal-estar em várias organizações e movimentos e muito desencontro. Até a proposta de nos juntarmos para discutir um outro mundo possível no FSM. E isso pegou.

JC - A maior contribuição do Fórum é essa troca de informações e o encontro de ONGs e associações?
Grzybowski - Essa formação de redes em escala mundial para articular decisões talvez seja uma das grandes contribuições do FSM. Mas mais do que isso, é essa inteligência coletiva que se cria. Todos temos uma reflexão sobre esse sistema, e há impasses, porque não é possível dar conta de tudo. Mas acho importante que uma mesa traga opiniões contrárias, porque no conjunto vamos saber mais do que individualmente. O mais importante é o diálogo inter-movimentos.

JC - O senhor discorda da tese do presidente Lula - ele disse que o Fórum deveria definir uma carta com poucas reivindicações para poder avançar?
Grzybowski - Posso dar uma proposta, mas como referendá-la? Teria que sair catando assinaturas, convocar uma reunião. Será que as pessoas gostariam que os dois, três ou quatro que compõem a organização do FSM propusessem e eles fossem lá votar, assim como se faz em um congresso em que, antes de começar, já se prepara a declaração final? O FSM não é isso.

JC - Mas e a definição de ações, como fica?
Grzybowski - Isso não quer dizer que não se façam ações: em 2003, por exemplo, (o dia internacional de mobilização contra a Guerra do Iraque) foi uma ação que surgiu no FSM e envolveu todo o mundo. Agora vou dar outro exemplo: em 2005, teve aquela famosa carta dos 19 (assinada por 19 intelectuais e prêmios Nobel que estiveram no Fórum). Mas que adesão teve aquilo? Isso tem a ver com a tradição política de esquerda, muitos se acham "os iluminados", propõem e acham que isso é suficiente. Talvez até houvesse consenso sobre aqueles pontos, mas teria que consultar mais de 150 mil pessoas que participaram do Fórum e isso exige trabalho. Você vai discutir, ouvir a opinião de outro, que vai dizer que "não é bem assim". Eles estavam dispostos? Não, eles são os iluminados. Falaram da tributação de transações financeiras internacionais. Agora a taxa está sendo implementada, não por estar naquele documento, mas porque houve um movimento internacional chamado ATTAC, de grande impacto, que levantou essa bandeira. Era visto como louco e hoje os governantes estão propondo, questionando os paraísos fiscais.

JC - A guinada à esquerda da América Latina nos anos 2000 teve influência do Fórum Social Mundial?
Grzybowski - São situações que acontecem porque se criou um ambiente. A ideia de que era possível acabou sendo uma bandeira de alguns deles. E foi até do (Barack) Obama (presidente dos Estados Unidos), que usou o Yes, We Can. O Fórum Social "Uma Outra América É Possível" aconteceu um ano antes da eleição, em Atlanta (EUA), terra do Martin Luther King, e o Obama se inspira no trabalho dele. Não conseguíamos montar nada nos EUA até falarmos com um movimento de justiça ambiental - é formado por negros, o pessoal que sofreu com o furacão Katrina. Eles assumiram, e o Fórum saiu. Agora, em 2010, vai ser em Detroit, e grande - numa cidade de 6 milhões da habitantes, coração da indústria automobilística, que perdeu seus empregos.

JC - Como foi essa expansão do Fórum pelo mundo?
Grzybowski - O Fórum policêntrico foi uma invenção em função da dificuldade de montar o FSM de 2006 na África. Como havia três candidaturas, aceitamos todas - então saiu em Caracas (Venezuela), Bamako (Mali) e Karachi (Paquistão). Em 2007 se fez no Quênia, em Nairóbi, e não foi fácil. Mas começou a crescer internamente um debate sobre o futuro do Fórum.

JC - É definitiva essa divisão "ano ímpar centralizado e ano par descentralizado"?
Grzybowski - Entre 2006 e 2007 ficou decidido, a pedido dos movimentos sociais, que fosse um ano centralizado e outro não, para poder enraizar mais o FSM e disseminá-lo. A única coisa que é cobrada ao usar o nome é respeitar a Carta de Princípios. Mas não precisa de autorização para fazer. Esse Fórum metropolitano de Porto Alegre 2010 poderia ser feito todos os anos.

JC - Em 2005, o público em Porto Alegre superou 150 mil e ficou uma dívida no orçamento do FSM. Isso influenciou para sair da cidade?
Grzybowski - A gente desenvolveu critérios sobre onde fazer. O FSM é mundial. Como ser mundial se está em um lugar só? Aí exclui quem não tem dinheiro para participar.

JC - Mas o Econômico é só em Davos, por que não o Fórum de Porto Alegre?
Grzybowski - Em Davos, são empresários, reúnem 2.500 pessoas que representam mais ou menos 85% do PIB mundial. Eles pagam US$ 20 mil de ingresso, nós cobramos R$ 20,00. Lá é excludente. Para nós, é importante mobilizar e incluir. Esse modelo de mundialização vai continuar, mas isso não quer dizer que o FSM não vá voltar a Porto Alegre. O evento pode ser do Estado, da região Sul, do Cone Sul.

JC - A questão política - saída do PT da prefeitura -, teve influência?
Grzybowski - Não, tanto que antes disso, em 2004, fomos a Mumbai (Índia) e depois voltamos para cá em 2005.

JC - Qual a chance de Porto Alegre sediar a edição centralizada de 2013?
Grzybowski - Muito remota, porque depois de 2011 (em Dakar, no Senegal), ainda temos de ir à Ásia, que é metade da humanidade, e fomos só uma vez a Mumbai e outra a Karachi, naquele fórum policêntrico. É muito pouco provável uma edição centralizada em Porto Alegre. Mas podem acontecer inovações na forma.

JC - E o seminário dos dez anos do Fórum?
Grzybowski - Quando foi pensado, era para enfrentar o debate "O FSM não acabou?". Mas depois, em Belém (PA), essa ideia caiu, porque foram mais de 120 mil pessoas (em 2009). Então, o Fórum ressurge e com muitos jovens. O Ibase fez uma pesquisa e aponta que eles são maioria. A gente ainda não soube incorporar a temática dos jovens no FSM. Apenas agora eles entraram no Conselho Internacional. E em Belém houve uma explosão, 72% dos participantes com menos de 34 anos. As crianças e adolescentes da época em que iniciamos o FSM estão tomando o evento para si, então, o Fórum não vai acabar. É uma espécie de universidade de cidadania planetária, criando uma inteligência coletiva sobre os desafios do mundo.

JC - E qual é o papel da imprensa neste aspecto?
Grzybowski - A imprensa hoje é mais importante do que o Parlamento. O poder, a disputa política principal se faz nesse campo, que marca o debate. É onde se reflete o estado de cidadania de uma sociedade. Por exemplo, nenhuma CPI partiu de iniciativa do Parlamento, todas saíram porque a imprensa apontou o problema. Por isso, acho que o principal efeito do FSM é nesse campo do imaginário, que é até mais importante do que decidir uma ação concreta, política. Até porque, onde estão as principais decisões políticas que afetam a nossa vida? No Banco Central. Ninguém lá é eleito. E é assim no mundo inteiro, o poder das corporações levou a uma espécie de privatização do poder. Quem é o Comitê de Política Monetária (Copom)? Todos são banqueiros.

JC - E a cobertura da imprensa sobre o FSM?
Grzybowski - Chegamos de surpresa, o que é bom para a imprensa. Então, no primeiro ano, mesmo criticando, era uma novidade que valia a pena noticiar. Mas na medida em que isso é uma disputa de agenda, de ideias e de imaginário, monta-se um campo social que não é neutro, há uma disputa. Mas aí o Le Monde Diplomatique, o Libératión estavam dando destaque e a imprensa aqui "baixando pau". Em 2003, adotei uma estratégia: convidei gente da grande mídia para mediar os debates. E o El Pais, que nunca tinha vindo, veio, O Globo passou a editar um caderno especial durante o Fórum, veio canal de televisão - eu liguei para o Roberto Marinho e disse que precisava de sua ajuda para mediar um debate em Porto Alegre. A cobertura foi muito diferente, deixou de ser só a curiosidade de alguém que tirou a roupa no Acampamento da Juventude. A evolução foi cada vez maior com a imprensa. Ano passado em Belém, veio até o correspondente da revista The Economist, que escreveu: "Enquanto em Davos é um velório, aqui é a festa da esperança."

JC - Como o senhor analisa a relação dos movimentos sociais com a política-partidária?
Grzybowski - A política existe e contamina tudo. O problema é que no Brasil as opções podem se tornar problema no pós-eleição. Por exemplo, o MST se mostra contra José Serra (PSDB, candidato à presidência da República). Se ele vencer, o MST vai ser marcado por quatro anos. Não temos maturidade política para reconhecer que uma eleição é medir a relação de forças. Quem ganhou não pode excluir ninguém, representa a todos. A democracia brasileira ainda tem muito a aprender. Aqui a luta política deixa sequelas.




Agência Brasil


Fórum Econômico Mundial termina com discussões sobre recuperação global da economia

Gislene Nogueira

Davos (Suíça) - No último dia do Fórum Econômico Mundial, as discussões se voltaram para o problema da recuperação financeira global. Os participantes discutiram estratégias que empresas e governos podem adotar para ajudar na retomada da economia.

Um consenso entre os participantes do fórum foi a necessidade de incluir os países do G20, as 20 maiores economias do mundo, no debate de como traçar novos caminhos para incentivar o crescimento econômico e criar empregos.

Além disso, durante os cinco dias de encontros, o assunto predominante foi a regulação do sistema financeiro mundial. A proposta do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi amplamente debatida.

Na sessão de encerramento da 40ª edição do fórum, seis estudantes entre 16 e 19 anos selecionados pelo Conselho Britânico contaram aos participantes experiências de projetos sociais para combater a pobreza, melhorar a saúde da população e promover o empreendedorismo no mundo. Os jovens foram escolhidos entre 1,2 mil candidatos, em um concurso promovido no mundo todo.


 

Vermelho


Marcha encerra o Fórum Social da Bahia

Integrantes dos movimentos sociais de diversos estados do Brasil embalados pelo som de batucadas e trios formaram um tapete colorido com predominância do vermelho pelas ruas de Salvador, capital baiana, em caminhada de encerramento do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, do bairro de Ondina ao Farol da Barra, na tarde ensolarada deste domingo (31/1).

Os três dias de Fórum reuniram 10 mil inscritos e, segundo estimativa da organização, em torno de 20 mil participaram dos debates. A estimativa tem por base a participação na programação oficial e em um grande número de encontros e mesas redondas autogestionados sobre diversos temas que movimentaram a cena baiana desde o dia 29 de junho.

O evento, pela primeira vez, sediado na Bahia, em dez anos de existência do Fórum Social Mundial, contou com o apoio do governo federal e estadual para sua realização e concretizou o debate , entre governo e movimentos sociais, de uma agenda comum para o desenvolvimento. "O Fórum ensaiou e aprovou uma nova proposta política de que, para mudar o mundo, é indispensável a parceria entre forças sociais e governos que compartilham dos mesmos ideais", afirmou o assessor da Presidência da República, encarregado pelo apoio ao FSMT-BA, Carlos Tibúrcio. "Se construiu, de fato, a ponte social, política e cultural entre o Brasil e o Fórum de Dakar em 2011. Portanto, esse Fórum foi uma vitória e isso deixa o governo federal muito feliz", destacou Tibúrcio.

Satisfação partilhada também entre os diferentes setores dos movimentos sociais. "De fato, se confirmou uma proposta inovadora em defesa de um novo projeto de nação, focado na valorização do trabalho e do trabalhador e, consequentemente, na luta pela redução da jornada de trabalho, pela reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar e, sobretudo, pela continuidade das mudanças iniciadas pelo presidente Lula", pontuou o presidente da seção baiana da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, e integrante da Comissão Organizadora do FSMT-BA, Adilson Araújo.


Candidatura da Bahia

A proposta da candidatura da Bahia para sediar o Fórum Social Unificado de 2013 marcou o ato de encerramento no Farol da Barra. Christoph Aguiton,(Attac-França), representando o continente europeu e um dos fundadores do Fóum Social Mundial, disse que a realziação vitoriosa do FSMT credencia a Bahia a se inscrever como candidata ao FSM em 2013. A proposta recebeu o reforço de Pascoal Carneiro e Martiniano da CTB e da CUT, respectivamente, que destacaram os importantes debates envolvendo a busca de alternativas para o desenvolvimento dos países, em especial da América Latina e África, baseada na valorização do trabalho. O representante do continente africano, Samba Buri (Africa do Sul) se referiu ao contingente, que ele chamou, de afro-descendentes, para reforçar a proposta da Bahia sediar o FSM , pós Dakar.



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